Aida Suárez: “A ficção também educa, também te dá pautas, por isso tentámos que os livros não reproduzam estereótipos ou situações de discriminação”

Aida Suárez, Confraria Vermelha

Aida, que desde muito cedo de viu dividida entre Portugal e Espanha, encontra nos livros a ponte entre os dois países, ao trazer de Espanha a vontade de abrir uma livraria de Mulheres em Portugal. E se desde cedo liga a sua vida com a presença do livro, a Confraria Vermelha vem dar a tónica que faltava a esta relação e ao seu comprometimento com as questões de género.

 

 

Como foi a tua infância e juventude?

Desde que nasci até aos seis anos foi passada entre duas cidades e entre dois países. Metade do ano no Porto e a outra metade em Espanha, em Leon, que era e continua a ser muito diferente do Porto. E, na década de 80 as diferenças entre os dois países eram muito mais vincadas do que possam ser agora. Era viajar entre duas culturas e entre duas famílias, a paterna e a materna. Era uma mistura de culturas e de línguas. Costumava brincar e dizer que a minha língua na parte de cima falava português e na parte de baixo espanhol e quando chegava à fronteira desligava uma das partes.

Quando entrei para a escola primária os meus pais decidiram que devia ser aqui e fiz a escola  numa escola muito modesta, na zona de Campanhã. Eu cresci num bairro social, o Bairro de S. Roque, ou seja, cresci no meio de bairros sociais e eu acabava por os frequentar por causa dos meus amigos. No final da escola primária fui estudar para Espanha dois anos e depois voltei. Entre os sete e os oito anos que tive o meu primeiro contato com o ativismo, juntamente com amigos e inscrevemo-nos numa coisa que se chamava pelouros e, no caso, inscrevemo-nos no da saúde. Naquele ano tinha havido muitas amigas próximas ou conhecidas que engravidaram, com idades entre os doze e os dezasseis anos, sendo que dentro desses casos havia já outras complicações a que a gravidez se somava. Nós queríamos fazer alguma coisa em relação a isso, fazer com que as meninas fossem acompanhadas no Centro de Saúde. Pensávamos “Neste momento eu não queria e se fosse comigo o que eu queria que me fizessem?”. Então conjuntamente e Centro de Saúde montamos uma estrutura com pessoas para ajudar. O nosso papel era criar a ponte entre as jovens e os Centros de Saúde e a escola. E tentávamos duas coisas: que não abandonassem os estudos e que fossem seguidas em consultas. Esse foi o primeiro momento de ativismo. Acabamos por entender que a raiz daquilo era a educação sexual e preparamos sessões para a escola. Foi muito interessante e tivemos muito apoio. Vindo de um problema, procuramos estratégias e éramos umas miúdas da mesma idade que as que contatávamos.

No secundário fui para Humanidades, mas não gostei e depois passei para animação sociocultural. Daí a chegar aos livros foi rápido: fui para o curso profissional e depois para a faculdade e aí percebi que o livro pode ser uma ferramenta para as coisas que eu achava que podia contribuir. Durante o curso, tudo o que era bibliotecas escolares eu envolvia-me e dizia “Quando acabar o curso vou trabalhar numa biblioteca”. E assim foi. Trabalhei na E.B. 2/3 da Areosa muito tempo. A relação com o livro como ferramenta do fazer pensar. Depois fui para a Santa Casa e depois fui para uma ervanária.

A área de animação sociocultural não é fácil, principalmente ao nível das instituições, cansa. Depois comecei a fazer oficinas de desenvolvimento pessoal e eram oficinas de mulheres, para mulheres através do recurso “arte” e “livre” e cada vez mais a questão de trabalhar com mulheres começou a crescer.

 

E a livraria, como surge?

Em 2009 fomos a Barcelona e eu queria ir à livraria de mulheres de lá. E fiquei com a ideia: “aquilo é giro”. No ano seguinte fomos à de Madrid e aí eu disse: “quero uma livraria de mulheres no Porto”, não só para poder manter o vínculo mulheres e livros, mas também com uma perspetiva de género. Um projeto sobre o pressuposto de que 90% do catálogo disponível na livraria é assinado por uma mulher e também vamos tentando (e isto é mais difícil, mas vamos tentando) e que os livros de ficção tenham algum cuidado com as questões de género. Por exemplo, uma das coisas que acontece na literatura e até no cinema é usar o abuso, a violação sexual e agressão sexual para tentar descrever personagens ou, quando o enredo está às voltas, metes ali uma violação ou tentativa e logo ali ficas com o enredo todo solucionado: tens o vilão, quem salva e a pessoa que é agredida (que normalmente são mulheres). Usa-se isso porque sim, de uma maneira muito frívola e nem criando por vezes empatia com a vítima. É um abuso do abuso como recurso fácil, porque muitas vezes nem acrescenta nada á história. E a ficção também educa, também te dá pautas, por isso tentámos que os livros não reproduzam estereótipos ou situações de discriminação. Não quer dizer que não falem. Tu podes fazê-lo, mas faz com que o teu enredo o faça de maneira coerente e não reproduza. E por isso nasce a confraria, porque acho que é necessário, no mundo da literatura, que as escritoras tenham alguma visibilidade; que se mostrem as diferenças que ainda existem, não só nesta profissão, mas o facto de ser uma livraria especializada, ajuda. Tentamos que os livros também tenham uma perspetiva de género, que não reproduzam estereótipos, que não reproduzam racismo ou discriminação, seja ela qual for. E não quer dizer com isto que não se falem destas coisas nesses livros mas as personagens e o enredo podem expor as problemáticas de maneira coerente e não reproduzindo.

 

Aida Suárez, Confraria Vermelha

 

Onde está o feminismo em Portugal, neste momento?

Ainda não está. Nós achamos que está, mas ainda não está. E não está porque o feminismo tem que ser uma coisa prática e, para isso, tem que ser acessível a todas as mulheres. O que não é. E quando digo que tem que ser uma coisa prática quero dizer que tem que estar presente no teu dia a dia e tem que dar resposta às necessidades do dia a dia de cada mulher. E se ainda não nos está a dar todas as ferramentas para os obstáculos que nos apresentam, então é porque ele não está onde tem que estar, que é na rua. Para mim o feminismo é isso, uma coisa do quotidiano e uma coisa prática. Não pode ficar na esfera académica, política ou na esfera do pensamento. Basta ver quando há uma manifestação de mulheres, que tipo de mulheres lá estão. E não estamos todas, faltam muitas. Então, é preciso chegar a essas muitas que não estão ainda. Como? Não sei. Mas é preciso lá chegar. Ainda por cima, nesta altura em que se fala tanto de feminismo (que eu nem sei se gosto que se fale tanto). Digo isto porque voltamos a cair nas garras do patriarcado porque ás vezes nem nos apercebemos que quem está a falar muito dele é a voz patriarcal que o transforma numa coisa que ele não é. É quase como “popizá-lo” , não me parece que exista a palavra, mas é uma ideia para dizer que embora o feminismo deva ser uma coisa popular, torna-lo pop no sentido Andy Warhol… acho que é contraproducente. Agora, acho que se estão a fazer coisas. Aqui no Porto há grupos a trabalhar e a criar redes de apoio. E é isso o feminismo quotidiano, criar redes de apoio entre mulheres que respondam às necessidades que elas têm no seu dia a dia. Porque apesar de por vezes querermos acreditar que as coisas mudaram , algumas não mudaram tanto como achamos. Há até a mudança legal, mas depois há a mudança real e essa às vezes não é suficiente. As mulheres continuam a ser sobre quem recai os cuidados: dos filhos, pessoas doentes, idosas. Há uma dupla ou tripla jornada e recai em situação de crise a precariedade num índice maior… Então estas fazem parte das inúmeras questões a que as mulheres tem que dar respostas e estas redes  são sem dúvida uma resposta e um suporte. Isto é o que é realmente o significado desta palavra que tem sido tão resgatada: a “sororidade”. A sororidade não significa que eu tenha de ser tua amiga, mas passa sim por trabalhar no mesmo sentido para que determinado tipo de coisas vão dando lugar a outras. O que o feminismo tem que fazer neste momento é fazer com que as mulheres que sofrem com menos dimensões de exclusão não andem para trás mas puxem as que estão atrás, e que sofrem de mais desigualdade, para a frente. Até esse momento nós não estamos realmente a trabalhar. Todas temos de ter acesso à educação, ao trabalho digno, a andar na rua livre de assédio, de violência… Às vezes nem sabemos o que temos e é importante parar para pensar no que tens e no uso que fazes disso. Para mim, neste momento, enquanto pessoa e ativista, o meu trabalho está assente nessa desconstrução. Aprender a estar calada quando alguém que está ao meu lado tem que falar e falar quando me calei. Saber onde a minha voz tem que estar e como a devo usar e, isso é um trabalho fundamental. Nós pensamos sempre em grandes projetos, mas este trabalho individual de desconstrução de privilégios é fundamental para que quando vais fazer um projeto o faças de forma mais consciente. Falamos muito da diversidade e inclusão sem pensar que não posso ser inclusiva se não me desconstruir.

E o meu trabalho deste ano na livraria é pensar em como chegar a quem o feminismo ainda não chega. Mesmo que seja pouco. Às vezes queremos fazer muito porque queremos uma mudança rápida mas é preciso dosear. Nestas coisas as coisas são difíceis de mudar,  se pensarmos: “Porque é que o feminismo sempre é empurrado, combatido e confundido?” Porque é uma maneira de pensar e de viver, mais do que uma filosofia, digamos assim. Como dizem as companheiras espanholas “é pôr uns óculos violeta (simbólicos), que desde que pões nunca mais consegues tirar nem ver as coisas da mesma forma”. E é normal que ao teres esses óculos 24 sobre 24 horas vejas coisas que não queres ver e irritas-te… Então tens de aprender a dosear isso e arranjar maneiras diferentes  de estar com isso e que pode ser através do afeto, por exemplo. E é preciso ir ouvir as outras, as tais mulheres que ainda faltam. A mim faz-me muita confusão as muitas formações que agora há. Por exemplo, há uma formação sobre a mulher cigana e depois não está nenhuma mulher cigana em sítio nenhum. Como podemos falar de uma problemática sem ter as pessoas a quem lhes diz respeito? Faz-me imensa confusão. Estamos a querer fazer por… Não vai funcionar. A nível institucional acho que se faz mais do que se devia. Depois não gosto de outra coisa, que é acharem que as mulheres fazem coisas corajosas. Era muito mais produtivo eu não ter de estar nessa posição combativa, nem quero mérito por isso. Tu não te tornas feminista, nasces feminista, com mais ou menos consciência disso. E percebes que o és desde que começaste a falar. Já o era a tua avó e a tua mãe. Sem elas se calhar nem terem mencionado a palavra feminismo. Mas o feminismo também não tem que ser mencionado.

 

E durante o teu percurso, como foi assumires-te como feminista?

Eu tenho muita dificuldade em meter-me dentro de caixas e esta é a única onde estou confortável. As restantes podem oscilar. O feminismo é como se estivesse no meu ADN. Com o nascimento da confraria realmente começo a usar a palavra de forma mais burocrática. Eu nunca tive problemas em dizê-lo, embora haja pessoas que em alguns ambientes não o dizem para não criar atrito. E eu entendi algumas coisas sobre isso. Há meia dúzia de anos engalfinhava-me em discussões que não me levavam a lado nenhum. Neste momento não o faço. Entendi que enquanto feminista não tenho que assumir o papel de educadora e entendi que, na verdade, nas discussões de quotidiano, quem te pergunta sobre feminismo são pessoas que não querem saber, mas querem irritar-te, para entrarem numa discussão. Não vale a pena. Ultimamente, com o feminismo tão pop, tenho tido alguma reserva em o dizer, as pessoas vão entender pela minha forma de estar. E quando digo pop é pop de popstar e isso não pode acontecer, como não pode acontecer o feminismo ficar na esfera académica ou na agenda política. É necessário mas não suficiente.

 

Aida Suárez, Confraria Vermelha

 

E assumindo essa tua leitura dos feminismos pop, como achas que as gerações mais jovens têm recebido isto?

Acho que corremos o risco de acontecer o que acontece no jogo do telefone em que a informação quando chega ao último receptor já está toda  atropelada. E é aí que vejo perigo deste merchandising que se faz. O feminismo sem conteúdo não faz sentido.

 

E entre a Aida dos 20 e a Aida de agora, quais são as maiores diferenças?

Já não compra todas as batalhas. Consigo perceber a verdadeira batalha. Engalfinhar-me num jantar com machões não é pensável, não entro nesse looping. Aprendi principalmente qual é o foco, apesar de saber que muitas pessoas vão-me tentar desviar pelo caminho e agora também faço um exercício de desconstrução dos privilégios, que os vinte anos custa-te mais a fazer. Aqui entram as pessoas, os contactos com outros feminismos que, quando dá conta, estão a ajudar-te a fazê-lo.

 

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

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