Alexandra Alves Luís: “A pior experiência que tenho é querer ver um sítio e ficar cá fora só por ser mulher”

Alexandra Alves Luis, Associação Mulheres sem Fronteiras

Alexandra Alves Luís passou mais de um ano sempre em viagem. Esteve em mais de cem países e conheceu a Coreia do Norte, a Antártida, as Galápagos e muitas outras regiões. Durante essa viagem, a questão que a tocou mais foi a condição das mulheres, e por essa razão hoje despende muito do seu tempo no ativismo feminista. 

 

 

Licenciaste-te em Organização e Gestão de Empresas e, mais tarde, decidiste dar uma volta à tua vida e começar a viajar pelo mundo. O que é que te levou a tomar essa decisão?

Das minhas recordações de infância, tem a vontade de viajar e conhecer o mundo. Na queria ser hospedeira, mas hoje eu percebo que isso já refletia a minha condição de mulher. Para viajar pelo mundo eu devia ter ambicionado ser piloto, porque ia sozinha – levaria eu o avião. Hoje, quando penso nisso, digo: “Bom, eu já nessa altura não tinha consciência desta desigualdade de papéis e ambições”.

Cresci numa família muito conservadora. Apesar de, aos 16 anos, ter dinheiro meu para fazer o meu primeiro interrail, o meu pai achou que não, que isso não eram coisas para meninas. Depois tentei sempre, quando estava a estudar (no ISCTE), ir estagiar no estrangeiro e consegui. Foi a primeira vez que viajei sozinha, no 3º ano: escolhi o sítio mais distante para onde podia ir e fui para a Finlândia. Aí tive uma boa experiência porque de lá podíamos ir, na altura, à União Soviética, e realmente percebi que há todo um outro mundo, era tudo muito diferente – estamos a falar do fim dos anos 80. Fui para a Alemanha quando acabei o curso, fazer Erasmus. A partir daí, quando se está no centro da Europa, há uma grande possibilidade de viajar.

Depois comecei a trabalhar numa empresa internacional na área da Gestão e podia sempre viajar – pelo menos para o centro da Europa – em trabalho. Comecei também a ter a experiência de viajar sozinha.

Sou uma pessoa muito curiosa e, viajar sacia-me. Existem pessoas diferentes, hábitos diferentes. É algo que se instala em ti, que não consegues descrever, e queres sempre ir para sítios diferentes ou ver coisas diferentes. Entretando surgiu-me uma oportunidade quando trabalhava em Madrid. Ou continuava lá e já não ia mudar, ou ia viajar. Decidi  dar a volta ao mundo. No total eu viajei quase durante dois anos, e essa foi a experiência que me marcou mais e que me levou a pensar sobre o que é que eu queria fazer da minha vida após essa viagem. Quando viajas estás longe da tua rede de amigos, dos teus contactos, da tua família, não tens a pressão de teres que voltar e teres as coisas na secretária à tua espera, estás completamente livre e olhas para as coisas de outra forma. Não tinha uma rota: tinha sítios onde queria ir, mas não tinha as coisas todas muito bem definidas. Ia ficando nos sítios onde conhecia pessoas, dos quais gostava.

A única coisa que sabia era que, quando chegasse, eu não queria voltar a estar numa empresa e a fazer a mesma coisa. E foi uma coincidência simples: fui a uma universidade que não era a minha à procura de um curso de Verão e vi um cartaz que dizia “Mestrado em Estudo sobre as Mulheres”.

 

Alexandra Alves Luis, Associação Mulheres sem Fronteiras

 

Enquanto mulher, tiveste tempos difíceis a viajar sozinha?

Sim, apesar de eu achar que todas as mulheres devem viajar sozinhas e que todas temos direito em ir a todos os sítios, não vou negar que não foi difícil. Primeiro, é difícil porque as pessoas não percebem porque é que vais viajar sozinha. Cria-se uma ideia de que “epá, ela é uma maluca” ou “vai à procura de homens”, tudo muito ligado às questões de sexualidade. São questões invariáveis que surgem, e é um bocadinho revoltante porque estás sempre a ser confrontada com essa situação. E existem muitas mulheres a viajar sozinhas.

O que é que nos acontece? Todo o tipo de coisas. Desde o assédio sexual, a forma como te olham, e uma coisa que me tem indignado muito é não poder entrar nos sítios só porque sou mulher, nomeadamente em monumentos classificados pela UNESCO.

Nessa altura, e especialmente numa fase inicial, eu não tinha tanta noção dos riscos. Se calhar houve sítios onde eu dormi, que hoje não teria ficado. Penso que corri determinados riscos desnecessários.

O facto de seres do “Norte Global”, faz com que à partida sejas logo percebida como uma pessoa com mais recursos económicos. E depois há outra questão que é ser mulher e de pensarem: “opá, elas são mais burras, não percebem, então posso pedir mais dinheiro”.

 

Uma das tuas viagens foi à Coreia do Norte. Como é que essa viagem aconteceu?

Eu tento encontrar locais em que possa conhecer a condição das pessoas e, principalmente, a condição das mulheres. Eu quero ver os sítios, não quero experienciar os sítios pelo que os outros me contam. Tinha uma certa curiosidade pela Coreia do Norte, que é um regime que eu não apoio. Mas o que queria ver era como é que as pessoas viviam, porque a minha experiência também me diz que na maior parte dos locais onde eu estive há uma grande diferença entre o que se escreve e aquilo que é a vida das pessoas. Há sempre uma carga ideológica por detrás da forma como se escreve sobre determinadas regiões.

Eu já tinha tido uma experiência na Coreia do Sul, com uma amiga, durante o Campeonato Mundial de Futebol Masculino Sénior e vivemos um mês com uma família sul coreana. Encontrámos uma situação de profunda desigualdade para a mulher jovem que tinha acabado de casar e que estava connosco. Chocou-nos muito a condição dela. Não saía sozinha, nós convidámo-la para jantar e a família não autorizava, o marido nunca estava em casa… Era uma circunstância muito difícil para ela. Essa família tinha decidido acolher pessoas durante o Mundial para a jovem nora poder falar inglês com alguém.

Queria sentir a diferença entre os dois regimes e como isso se reflete na vida das mulheres. Organizei-me durante um Verão que passei em Pequim e fui numa viagem organizada. Eu sabia à partida quais eram as regras, e em qualquer país que eu vá sempre respeitei as regras. Neste caso tínhamos uma lista completa, desde como é que nos tínhamos que vestir, o que podíamos levar – não podíamos ter telemóvel -, o que  podíamos fotografar. Nada me ofereceu um problema, foi uma viagem muito interessante. E como suspeitava a condição das mulheres lá é muito próxima à da Coreia do Sul, e a muitos outros países do mundo. A discriminação de género é a grande discriminação em todos os países do mundo.

Essa viagem também me trouxe uma outra parte: eram principalmente homens que faziam essa viajem, na sua maioria estadounidenses, para poderem dizer que tinham ido a um país que não era “recomendado”, com muito pouco respeito pelas pessoas nortecoreanas, tentando sistematicamente fazer tudo o que nós sabíamos que não deveríamos fazer.

 

Alexandra Alves Luis, Associação Mulheres sem Fronteiras

 

Qual é que foi a tua pior experiência? E a melhor?

Do ponto de vista da segurança tive muitas más experiências. Considero que as tive porque se calhar não cumpri aquelas regras todas que nos vão dizendo para cumprir. Mas enquanto pessoa que defende os direitos das mulheres acho que a coisa mais revoltante que acontece é não me deixarem entrar em sítios de acesso público por ser mulher. Tive um assalto grave com uma arma, mas acho que essas não são as coisas mais relevantes. Acho que a pior experiência que tive é eu querer ver um sítio e ficar cá fora só por ser mulher. Alguns desses sítios, do ponto de vista cultural, são muito importantes, são classificados como Património Universal e isso ainda me revolta mais. Como é que eu não posso entrar num monumento que é Património da Humanidade só por ser mulher? Parece que eu não pertenço à Humanidade.

A melhor experiência que tive em viagens foi a Antártida. Vai ser uma experiência difícil de igualar porque, apesar de existirem bases de vários países e de estarem pessoas presentes desses vários territórios, percebe-se o que é que é um território que não tem intervenção do ser humano, onde não há ruído, não há eletricidade e o que se vê na Natureza faz-nos pensar sobre muitas coisas. Perante aquela imensidão e aquele silêncio, a quantidade de pinguins, as baleias, os cheiros, tudo, só pensas “o que é que nós fizemos neste planeta!”.

 

Foi nas tuas viagens que descobriste a tua vertente feminista e ativista ou era algo que já borbulhava antes?

Sempre tive uma consciência dos direitos humanos, sempre fui uma pessoa que tentou lutar, pelo menos a nível familiar, mas era sempre um bocadinho vista como uma pessoa utópica. Senti assim como que uma certa dor, quando comecei a descobrir a violação de direitos que as mulheres, raparigas e meninas sofrem todos os dias, e pensei: “como é que eu precisei de tanto tempo para ter isto tão presente?”. Sempre fui feminista e sempre tomei decisões, mesmo a nível profissional, que tinham o feminismo como pano de fundo, mas não tinha qualquer tipo de consciência. Não conhecia, não conhecia os movimentos de luta das mulheres, não conhecia autoras fundamentais, existia todo um mundo que não conhecia. Essa porta abriu-se e tive a consciência de que a desigualdade não existe só à minha volta e em algumas coisas que vejo. É um cenário muito maior que esse e é um cenário em que nós, mulheres, estamos no centro dessas discriminações e dessa desigualdade, que obviamente que se intersecciona com outras. O facto de ter ido viajar foi fundamental para me aperceber. E quando fui para o Mestrado em Estudos sobre as Mulheres só pensava “mas como é que eu não sabia nada sobre isto?”. E isso deu-me uma força e disse para mim: “é isto, é por aqui que eu quero ir”.

Rapidamente essa dor inicial transformou-se numa energia: “Há tanto para fazer!”. Acabei por canalizar essa energia para algo em que tu acredito, que estava lá, mas adormecido, que não era consciente.

 

Qual dos projetos é que sentes que teve um impacto maior na tua vida e na vida de outros?

Existiu um projeto que me permitiu trabalhar com mulheres que estavam em contexto de casa-abrigo e também com pessoas que passaram pela prática da excisão. Penso que esse projeto, apesar de outras iniciativas em que paticipei, marcou-me bastante porque se interligou com outro projeto com a metodologia de Teatro do/a Oprimido/a. E o que é que nós fizemos? Por um lado, em relação às mulheres e às crianças que estiveram em contexto de casa-abrigo, o objetivo era estarmos juntas e falarmos sobre as questões que para elas eram relevantes. Foi muito importante não só nós partilharmos as nossas experiências, mas também percebermos que muitas vezes nós, mulheres, não temos esse espaço de diálogo e que essas mulheres, até chegarem ao contexto de casa-abrigo, estão muito isoladas. Construímos uma peça de teatro, totalmente feito pelo grupo, com essas mulheres que estavam em contexto de casa abrigo e apresentámos também a outras mulheres que também estavam no mesmo contexto. Esse foi um momento muito importante.

E depois o outro, sobre a excisão. Enquanto viajante, tenho o máximo respeito por tudo, não acho que deva ter algum tipo de interferência nas normas, sou muito cautelosa. E de alguma forma esse meu respeito fez com que eu não estivesse atenta que existia a excisão em vários países onde eu estive. De certeza que muitas das mulheres com quem eu falei tinham passado por essa prática. Acho que se tivesse a consciência de quais eram as implicações dessa prática eu já teria dedicado mais tempo a essa causa. Claramente, a partir dessa volta ao mundo, eu decidi que esta causa é a minha causa. Dou tudo o que eu tiver e faço o que puder para apoiar as mulheres, raparigas e meninas que estão na linha da frente desta luta. O facto de eu ter estado em escolas, em Portugal, onde conheci meninas que nunca tinham falado com ninguém sobre o trauma que a excisão lhes causou, rapazes que tinham irmãs afetadas, mudou a minha vida. Com a Margarida Cardoso acabámos de fazer um filme, “A tua voz”, que dá voz a 22 pessoas que em Portugal e na Guiné-Bissau são ativistas pelo fim da excisão. Com nove mulheres, criámos a Associação Mulheres sem Fronteiras, que entre outros objetivos, desenvolve atividades para prevenir e apoiar as sobreviventes das ditas práticas tradicionais nefastas, incluindo a excisão.

 

Alexandra Alves Luis, Associação Mulheres sem Fronteiras

 

Um dos mais recentes projetos em que estiveste envolvida, em conjunto com a realizadora Margarida Cardoso, foi na realização do documentário “Partir do Zero”, sobre vítimas de violência doméstica. Como é que surgiu esta ideia?

Nós mulheres, quando somos ouvidas, temos muito a dizer sobre as violências de que somos alvo. O problema é que muitas vezes ninguém nos ouve. Muito mais as mulheres que são sobreviventes de violência ou as mulheres que estão isoladas. E, de repente, há uma riqueza das partilhas e do que as pessoas querem dizer para que vejam que os seus direitos são reconhecidos. E foi um bocado por aí. Nós tínhamos uma verba para fazer um vídeo de sensibilização, e depois pensámos: “Não, eu acredito que vamos conseguir algo maior”. Contactámos muitas realizadoras, enviámos a informação sobre o que pretendíamos fazer e, nesse contacto, a Margarida Cardoso respondeu manifestando muito interesse pela ideia. Não falou de dinheiro, só dos prazos. Nós tínhamos pouquíssimo dinheiro e o que lhe pagámos nem sequer cobre, de maneira nenhuma, todo o seu trabalho. Acabou por ser muito intenso e marcante para ambas. Sempre que estamos juntas falamos destas mulheres. Por outro lado, foi também importante perceber como foi importante para aquelas mulheres sentir que a voz delas foi ouvida.

 

E continuas a contactar com essas mulheres?

Sim, sim. Algumas dessas mulheres pediram-me amizade no facebook. Eu também já não estou envolvida nesse projeto e elas já não estão em contexto de casa-abrigo, foi uma etapa que ficou para trás nas suas vida e sim, falamos. Há cerca de duas semanas, uma dessas mulheres, enviou-me uma mensagem pelo facebook para a ajudar a organizar uma atividade para o Dia das Mulheres. Estaremos ligadas para sempre.

 

Vives o ativismo numa forma prática e desenvolves os teus projetos para o mundo físico. Achas que hoje o ativismo feminista vive mais no virtual do que na rua? Ambos coexistem de forma harmoniosa?

O ativismo feminista acontece em muitas dimensões que, muitas vezes, não são visíveis e algumas delas até podem ser desvalorizadas. Falar com a minha vizinha, a minha colega, a minha amiga, de certas questões, convidar para aquele filme, tudo isso pode ser considerado ativismo. No entanto, é muito importante que nós mulheres ocupemos as ruas. Em Portugal,  vamos pouco para a rua exigir os nossos direitos e nós mulheres ainda vamos menos. Ainda há um grande estigma sobre o que é ir para a rua exigir direitos. Recordo-me que só depois da volta ao mundo e repensar o que queria da minha vida é que tomei consciência que nunca tinha ido ao desfile do 25 de Abril. Porque trabalhava numa empresa e era foleiro, sabia que as pessoas iam falar, comentar e inconscientemente não ia. Estamos preocupadas com o que pensam e sinto que há muitas mulheres que não vão às marchas, às manifestações porque há esta carga.

O virtual também é muito importante porque chegamos a outro tipo de pessoas. Há mulheres que, pela sua circunstância, podem estar mais isoladas.

Para mim é importante que se dê visibilidade às mulheres na luta das mulheres, nos feminismos. Todas as pessoas podem e devem apoiar as lutas das mulheres, mas têm que reconhecer o seu privilégio. Ou seja, os homens podem estar presentes, mas não deveriam encabeçar todas as manifestações, inclusive as convocadas por ongs de mulheres. Não serem sempre eles a serem entrevistados, não nos deixarem na categoria de objetos. É tempo de sermos sujeitos.

 

 

 Entrevista: Margarida Henrique | Fotos: Rebeka Dávid

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