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Gabriela Canossa: “Se eu tiver mulheres a pegarem num ferro e abrir buracos para plantar, não ponho a hipótese de lhes pagar um preço inferior, o preço de «trabalho de mulher»”

Enóloga sem que nada o fizesse prever, Gabriela fugiu da tradição familiar que a levava às artes e escolheu uma outra forma de exprimir a sua criatividade, fazendo vinho. Uma apaixonada pelo Douro, habituada a mover-se num mundo tradicionalmente de homens e a conquistar o seu espaço. Sente os vinhos como filhos, numa vida dedicada a estes.

 

 

Como chegou à enologia?

É engraçado e foi um bocadinho diferente do que era habitual. Grande parte dos enólogos da minha geração vieram para o setor do vinho por ligações ou tradições familiares ao setor do vinho. E de facto, a minha envolvência familiar era para seguir artes. Cheguei a estar em arte e design, depois cheguei à conclusão, no 9º ano, quando tive encontro com colegas dessa área, que tinha muito pouco talento. E medíocre não me apetecia ser.

Na altura falei que queria ir para a área agrícola, o que foi um choque. A família não tinha nenhuma ligação. Tínhamos uma quinta em Penafiel, mas que nem encaramos como produtiva. E os meus pais acharam que se eu fosse para a Escola Agrícola de Santo Tirso se calhar ia perceber que não era isto e que não decidiria só na faculdade. O que aconteceu foi exatamente o contrário: adorei. E aí notava-se imenso que as mulheres eram poucas. E quase não se falava em enologia. Eu lembro-me que quando cheguei para o primeiro dia de aulas, os rapazes estavam a ver na listagem dos alunos quantas raparigas havia nesse ano. Então éramos 13 na Escola Agrícola Conde de S. Bento, em Santo Tirso, onde tirei regência agropecuária. Nesse período tive um problema de saúde que me levou a um ortopedista, o Dr. Asdrúbal Mendes, que me falou no curso de enologia porque durante as consultas ele apercebeu-se que eu teria um bom nariz. Eu detetava alguns aromas dentro do ambiente hospitalar que ele achou curioso e, então, falou do curso e perguntou se eu sabia o que era a enologia; e eu dizia que vinhos  já cheirara muitos anos (tinha treze anos) mas não sabia que havia formação específica de enologia e ele deu-me as informações todas. E então vim para Vila Real para enologia e foi um crescendo de paixão. Eu acho realmente que as mulheres estão mais vocacionadas até para esta área do que os homens potencialmente, porque nós somos treinadas desde jovens nos aromas, nos cheiros, nos perfumes, muito mais do que os homens. A memória olfativa é uma coisa que se treina e, de facto, nós as mulheres começamos esse trabalho, inconscientemente, mais cedo do que os homens. Mas depois há um lado não tão romântico de cheirar e do trabalho de adega, que é um trabalho muito duro. Mas, ainda assim, acho que as mulheres incrementaram um lado, não de força física, mas de trabalho com a cabeça. Porque nós normalmente não temos tanta força física e então puxamos mais pela força criativa para arranjar soluções que nos poupem fisicamente. E esse tem vindo a ser também um fator de sucesso das mulheres na enologia, o reinventar.

Quando eu comecei, era muito raro uma mulher na enologia; saíram meia dúzia de fornadas da faculdade e grande parte delas tinha ido ou para o ensino ou para os laboratórios. Então, o dia a dia na adega criou algum choque aos colaboradores, embora pelo menos comigo, senti que se criou uma situação muito interessante, que foi tornarem-se as adegas mais serenas, mais calmas e mais bem educadas, porque havia sempre aquela situação de não haver uma voz mais alta ou uma palavra mais agressiva, porque havia uma senhora presente. E, portanto, acho que também viemos trazer essa delicadeza.

 

Gabriela Canossa

 

Quais as principais dificuldades neste mercado de trabalho para uma mulher na sua posição?

É evidente que havia uma estranheza muito grande. Principalmente quando lidávamos com equipas mais envelhecidas. Na Taylors, não senti isso, porque é uma casa já com uma leitura e abertura completamente diferentes, mas quando entrei para uma casa portuguesa já senti um bocadinho isso. Depois, ainda hoje, numa ou outra situação noto alguma resistência a haver liderança por mulheres mas de forma mais disfarçada, o que torna tudo mais perigoso porque podemos ser levadas em situações que se revelam de repente.

 

Nota mais essas situações em que patamares da organização? Nos trabalhadores, nas chefias…?

Os trabalhadores têm um primeiro impacto razoável, mas se mostrarmos conhecimento e capacidade é rapidamente resolvido e passam a respeitar. Eu considero que a resistência maior e a mais disfarçada está nas chefias intermédias e ao meu nível: aí sim. Embora já estejamos a falar de sangue fresco, é uma geração mais recente e então disfarça essa postura, mas ela está lá.

 

 

Considera que há diferença entre as quintas portuguesas e as estrangeiras?

Sim, embora haja empresas aqui que, por regra e pelo menos em cargos de chefia, não contratam mulheres, inclusivamente as da família. Elas não têm acesso à empresa. Já acontece pouco, mas tenho conhecimento de uma, que é uma casa inglesa, onde em cargos de chefia não entram mulheres. Eu só trabalhei numa casa inglesa, a Taylors, mas neste caso notava uma igualdade muito grande. Para mim foi um choque mudar, achava que era um setor à parte porque nunca me tinha sentido diferente e, afinal, notei diferença quando vim para as casas portuguesas. Isto é um bocado geral, porque no Douro aceita-se que haja a distinção de “trabalho de mulher” e “trabalho de homem”, o que eu acho absurdo. Eu sou uma acérrima defensora da luta contra isso. Ouve-se constantemente a pergunta “quer mulheres ou quer homens?”. E há um preço. As mulheres ganham menos que os homens, supostamente porque as mulheres fazem o trabalho mais leve e os homens o trabalho mais duro. E eu digo que isso para mim não existe. Inclusivamente, todas as faturas que me são passadas por empreiteiros agrícolas vêm com trabalho discriminado e não com trabalho de mulher ou homem. Eu recuso-me. Se eu tiver mulheres a pegarem num ferro e abrir buracos para plantar, não ponho a hipótese de lhes pagar um preço inferior, o preço de “trabalho de mulher”. Para mim, se a pessoa faz um trabalho mais pesado e mais exigente fisicamente então tem que receber mais, sendo homem ou mulher.

 

Gabriela Canossa

 

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

Odete Fiúza: “De facto, alguém tinha roubado os meus ténis”

Odete FiúzaOdete Fiúza é jurista e atleta para-olímpica. Veio de Leiria para Lisboa para estudar Direito e foi nesses anos que encontrou o atletismo. Em 20 anos de carreira ganhou 14 medalhas e muitas histórias para contar.

 

 

 

 

A Odete nem sempre gostou de correr. Como é que chegou até aqui?

Durante a adolescência não gostava muito de correr. Quando vim para Lisboa, para a universidade, tive necessidade de procurar mais apoios na área da deficiência visual e inscrevi-me na ACAPO, onde havia publicidade a atletismo para cegos. No início mostrei alguma resistência, mas fui experimentar. Depois fui estimulada a participar em competições internacionais. O meu primeiro impacto foi estar com pessoas fora do comum. Pessoas cegas que andam na universidade e que têm tantas competências. A corrida é extremamente inclusiva. Nós corremos com guia, mas corremos naquele espaço com todas as outras pessoas. Eu pertenço à sociedade.

 

Em 20 anos de carreira, qual foi a história que a marcou mais?

Em 2003, no campeonato do mundo. No tempo de aquecimento deixamos as coisas em montes e eu tinha já separado o saco com os ténis com os quais ia fazer a prova. Quando volto do aquecimento digo ao guia que os ténis tinham desaparecido. Alguém tinha roubado os ténis. Se afetou a minha prova? Não sei, mas bati o recorde pessoal e fiquei em terceiro lugar.

E também em Londres, em 2012. Ia bastante bem classificada e quando entrei nos últimos 150 metros empurrei o meu guia, ele tropeçou e caiu. E continuei a correr sozinha, mesmo sabendo que não podia chegar sozinha à meta. Eis que ele aparece pelo meu lado direito e diz: “Odete, estás muito perto da calha, olha que vais cair!”. Tenta pôr-se entre mim e a calha, faltavam 20 metros para chegar à meta. Eu tropeço nele e caio. Não me podia agarrar ao guia e estive uns 5 segundos para me levantar. Foi muito tempo! Mais tarde o meu guia disse em tom de brincadeira: “Só tínhamos duas hipóteses de ouvir 80 mil pessoas de pé. Ou ficávamos em 1º lugar ou tinha de atirar a Odete para o chão”.

 

Odete Fiuza

 

Dentro do desporto sente que ainda existe tanta discriminação de género como quando começou?

O contexto há 25 anos atrás era marcadamente masculino e a reação era “o que está aqui a fazer esta menina? Devia era estar em casa”.

Mas não posso deixar de fazer essas comparações entre Atlanta ‘96 e Rio de Janeiro 2016. É completamente diferente. Em ‘96 não tinha um guia masculino que quisesse correr comigo, porque não queria, porque era mulher. E no Rio de Janeiro, havia já uma maior abertura.

 

Entrevista: Margarida Henrique | Fotos: Pedro Pinto Basto

Capicua: “Encaro o rap como uma militância e como uma forma de intervenção social”

CapicuaAna Matos, mais conhecida por Capicua é portuense e encontrou no rap a sua forma de expressão. Um espírito crítico solto desde criança, abandona a sua vertente de investigação enquanto socióloga  para dar lugar ao seu sonho de ser rapper “ nesta terra que ainda não tinha uma MC de jeito”.

 

Gostava que nos partilhasses um bocadinho da tua infância… Como é que a Ana chega até aqui?

Sempre fui uma criança com espírito critico bastante apurado e inquieto. Estava sempre a observar o que me rodeava, a ouvir a conversa dos adultos, a questionar as respostas deles. E desde cedo descobri que gostava muito de escrever. E acho que também porque os meus pais ouviam muito aquelas músicas de Abril do Sérgio Godinho, do José Mario Branco, Fausto… Acabei por encontrar na música também essa ideia de que a palavra vem sempre associada, pelo menos para mim, a um veículo de discurso como ferramenta para a mudança do mundo e  das mentalidades. Mais tarde, na adolescência, quando encontrei o hip hop, acabou por fazer sentido por essas mesmas razões, porque o rap implicava o domínio das palavras, de que eu tanto gostava, porque é uma música onde a mensagem é o mais importante. Primeiro como ouvinte de rap e depois como aprendiz de rapper acabei por fazer das palavras o meu veículo de expressão e uma forma de intervir socialmente. Além dessa tribo eu também fiz  imensa política e na faculdade participei em alguns órgãos estudantis. E portanto na minha adolescência, além do hip hop,  uma coisa que foi muito marcante foi esse percurso associativo  e também político na esquerda, e na forma como fui tendo contacto com o movimento anti-racista, com o movimento feminista, com o movimento ecologista e com essas temáticas todas da esquerda. Fui para sociologia e acrescentei ainda as ciências sociais a esse espírito critico. Quando acabei o doutoramento decidi tirar uma ano para terminar o meu primeiro disco e dedicar-me à música a 100%. O disco foi um êxito e através do rap e da minha presença pública pude abordar, desconstruir e rebater questões coletivamente de uma forma muito mais direta e sem intermediários. Depois sou também convidada a dar várias conferências em escolas secundárias, universidades, associações, cadeias… Em muitos locais onde depois se acaba por falar sobre todo um conjunto de temas que vai muito além da música. E eu acho que as pessoas acabam por me convidar precisamente porque a minha música tem essa dimensão social e política .

 

Tens aí uma grande responsabilidade…

Toda a gente tem uma responsabilidade, mas acho que quem tem um microfone acaba por ter uma oportunidade. Eu encaro a minha música com uma visão muito autoral, do mundo e do que eu acho que é importante transmitir. E dentro desse conjunto de temas e de abordagens não só estão amor, a vida, e aquilo que nos rodeia como também está este conjunto de temas sociais e políticos porque fazem parte da minha vida, do que eu observo em redor e parte das minhas preocupações. Portanto não faria sentido excluir essa dimensão que é para mim da minha obra, digamos assim. Depois ao mesmo tempo acho que nos acabamos sempre por posicionar, nem que seja pela omissão. E eu prefiro posicionar-me de uma forma afirmativa do que pelo que eu não disse.

 

E ao nível dos feminismos, como achas que está Portugal?

Neste momento a globalização está de tal forma instalada e os media e as redes sociais fizeram encolher tanto distâncias entre povos que eu acho que estamos a viver um bocadinho o boom do feminismo trendy que se instalou desde 2013/2014, mais ou menos. Agora o feminismo está presente nos discursos das figuras públicas, fala-se de feminismo nas escolas, nas empresas, nos media, de uma forma muito menos preconceituosa do que se calhar no passado. Mas ao mesmo tempo vejo que esse feminismo também se esvaziou de algum radicalismo que eu acho que lhe dava um poder, sobretudo de rotura, que eu acho que era essencial. Portanto, há coisas boas a assinalar e coisas onde, infelizmente, ainda temos um longo caminho pela frente. Mas acho que só o facto de se falar abertamente sobre isso e de se começar a perder aquela ideia de que o feminismo é um grupo de mulheres radicais , agressivas e mal amadas … Só a desconstrução dessa ideia arcaica que descredibilizava a própria luta e que era muito preconceituosa e misógina, já é uma avanço. Agora, temos é de ter cuidado com uma banalização ao ponto de ser só um termo vazio e cliché  quase, que está muito na moda mas já não quer dizer nada. E como eu acredito que ainda há muito a fazer, o feminismo tem de continuar a existir com todo o seu radicalismo. E quando eu falo de radicalismo quero mesmo ir buscar o termo “raiz”, e a sua raiz é ser uma luta e não mais um cliché, mais um chavão.

 

Assumes-te como feminista?

Claro que sim. Para aí desde os meus 14 anos. Mesmo que não fosse por uma questão de luta política, organizada ou coletiva, nem que fosse por uma forma de estar que eu não consigo evitar que é esta forma de ser o mais espontânea possível, o menos condicionada possível pelas espectativas , e o mais orgulhosa possível de ser quem eu sou, de fazer o que eu faço e defendendo o meu trabalho com unhas e dentes – o que são características muito subversivas pelo facto de eu ser uma mulher, e as mulheres não são propriamente estimuladas – nem que fosse pela minha própria forma de estar que tem muito a ver com a minha educação e  com esta minha formação política, eu já seria uma feminista.

 

Capicua

 

E nesse mundo mais underground como disseste, sentiste alguma dificuldade por seres mulher?

Nos primeiros anos senti que era muito difícil encontrar um rapaz, um homem, que conseguisse relacionar-se com uma mulher de igual para igual. Mas depois encontrei um grupo de amigos, rapazes e raparigas,  que faziam parte da cultura hip hop e com quem eu me sentia super integrada e super de igual para igual e sempre me senti confortável, porque realmente encontrei pessoas com essa abertura. Depois eu própria também nunca pedi propriamente licença para para existir e sempre achei que se mostrasse o meu valor, o meu trabalho e tivesse orgulho no meu trabalho, que os meus pares iam acabar por tirar o chapéu. E isso acabou por acontecer. Mas não quer dizer que por eu ter conseguido seja fácil para as outras mulheres. Porque não é fácil, de facto nao é fácil. Nos temos que provar 3 vezes mais que o nosso trabalho tem qualidades, que estamos aqui pelas razões certas, que estamos aqui porque gostamos de rap e não porque gostamos de rappers… Mas também devo dizer que o hip hop não é especialmente misógino comparado com outros estilos de música, apesar de se achar que sim porque há sempre uma ideia associada de gangster rap e que o hip hop é tudo aquilo.

 

E como foi a aceitação deste teu percurso por parte da tua família, amigos…?

Eu tenho a sorte de os meus pais terem sempre aceite muito bem as minhas decisões e até as minhas excentricidades e por isso sempre fui acarinhada e sempre me apoiaram muito, e isso foi determinante para seguir com a autoestima necessária para fazer isto que eu faço. Porque acho que é um desporto radical manter uma autoestima sendo mulher nesta sociedade. Isto é engraçado porque eu aprendi com o rap uma das lições mais feministas que posso aplicar na minha vida e que aplico no meu trabalho, que é essa ideia de estar no palco orgulhosamente. Os rappers não pedem licença a ninguém, e de facto tem essa fama de serem arrogantes… E isso é bastante libertador e subversivo porque tens uma mulher em cima do palco, não para ser decorativa ou para entreter ninguém, mas para fazer aquilo que lhe apetece fazer em termos artísticos e dizendo aquilo que ela quer dizer, livre de qualquer tipo de condicionamento.

Em 2014 fui participar num festival de rap no Brasil, organizado por um rapper brasileiro, o Vinícius Serra, e uma das pessoas que participou num dos concertos que nos demos foi a Nega Gizza , que é uma rapper  brasileira que teve lá bastante sucesso e que entretanto já está retirada do rap e dos palcos, embora continue ligada à cultura hip hop. E foi muito importante para mim porque eu nunca me tinha apercebido, até estar à conversa com ela, que me fazia falta falar com uma mulher do rap mais velha do que eu. Aqui em Portugal há um pessoal mais velho do que eu. Mas são todos homens e eu percebi ali que aquele encontro foi muito importante porque eu nunca tinha conversado com uma mulher rapper mais velha do que eu. E nunca tinha falado sobre esta coisa de envelhecer sendo rapper, porque os rappers são sempre muito associados à juventude, e os próprios homens vestem-se sempre como quando tinham 15. Mesmo quando têm filhos mantém essa identidade muito intocada. Mas com as mulheres é um bocado diferente a partir do momento em que começam a ter filhos, porque há a amamentação e deixar os filhos em casa e irem para concertos… E acaba por ainda estar muito do nosso lado a questão do cuidado familiar, pelo menos nos primeiros meses. E também essa ideia de como é que se envelhece sendo mulher, a fazer rap, a ter filhos, a comunicar isso para o público… Aqui em Portugal isso ainda não existiu e eu vou ter de inventar isso. Não sei bem como mas com certeza vai ser sendo eu própria e fazendo o que me for mais intuitivo.

 Capicua

 

E tu, sentes-te uma mulher em realização ou realizada?

Em realização claro. Acho muito difícil dizermos que estamos realizadas, que já cumprimos e que já podemos ir embora porque sentimos que está feito. Não. Há realizações minhas, porque eu imponho sempre metas a curto-médio prazo como fazer mais um disco ou mesmo a nível familiar. Sei lá, há muitas coisas que eu sempre quis fazer: ter este trabalho, os filhos, ter uma casa no campo que é uma coisa que eu amo, e até tenho uma horta e gosto muito de mexer na terra e criar os meus próprios alimentos. Gostava de ter uma horta. Não como estilo de consumo mas como estilo de vida, digamos assim. Há sempre outras metas e outras coisas. É um processo, não é um estado.

 

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

Margarida Marcelino Marques: “Eu participava em tudo: manifestações, bloqueio de exames…”

Margarida Marques não sabia, mas acompanhou de perto as preparações do 25 de Abril. Também participou ativamente nas Crises Académicas e foi uma das fundadoras, mais tarde, da Aliança para a Democracia Paritária, que construiu um argumentário, agora atualizado, para a Democracia Paritária. Sempre esteve no terreno, participando, nos anos 80, na criação de um Programa de Formação e Capacitação destinado a mulheres portuguesas emigrantes nos principais países da então Comunidade Europeia.

 

O seu pai foi o coronel Marcelino Marques, figura importante do 25 de abril. Como viveu esta época?

Quando foi a altura do 25 de abril ele estava afastado para fora de Lisboa. Eu só tive consciência que havia qualquer coisa no ar, porque houve uma reunião do Movimento das Forças Armadas na cave da minha casa. E o meu pai disse-me a mim e à minha irmã: “vocês não viram nem ouviram nada, mas vão servir uns cafezinhos”.

Íamos para as aulas [durante a Universidade] com carros da polícia, com capacete e viseira, e sentíamos que as coisas estavam pelo fio da navalha. Fartei-me de fugir da polícia. Distribuíamos panfletos contra a ditadura e a guerra colonial e tínhamos que ter esconderijos. Também havia um sítio de recurso mas ninguém ia lá, só se houvesse algum incidente. Havia estudantes que eram apanhados, iam para a PIDE e ficavam à noite ou dias em interrogatórios. [Nas crises académicas] Eu participava em tudo! Manifestações, tomadas de posição, a bloquear os exames, etc.

 

Como era ser feminista antes do 25 de abril?

O ser feminista antes do 25 de Abril era uma questão que estava muito ligado a várias supostas manifestações em que diziam que as feministas queimavam os soutiens. Não havia ninguém a queimar soutiens, até porque os soutiens eram caros e ninguém estava para isso. As pessoas eram rotuladas. Se uma mulher se maquilhasse ou se se arranjasse um pouco melhor já não era [feminista], era mulher-objeto. Portanto, essa vivência não era uma vivência definida de feminista. As pessoas diziam que eramos rebeldes, púnhamos em causa o status-quo.

 

Margarida Marcelino Marques

 

O que é que ainda falta ganhar na luta pela Igualdade de Género?

A igualdade, mesmo! Continua a haver diferenças salariais, a não haver partilha do trabalho doméstico e paridade na gestão das empresas. Sentimos que tudo o que fizemos foi uma gota de água. Porque aquilo que é o cerne dos direitos humanos não é apreendido desde criança. Não são formatadas, logo desde pequeninas, a ter respeito pelos direitos humanos. Vai-se mudando as vírgulas, porque se é obrigado por lei, mas é tudo com uma resistência à mudança gigante, como se estas mudanças fossem perigosas.

 

Entrevista: Margarida Henrique | Fotos: Rebeka Dávid

Olga Mariano e Noel Gouveia: “Sou cigana com todo o orgulho que isso me dá, e posso ser tudo aquilo que quiser ser sem nunca deixar de ser quem sou”

Olga Mariano e Maria Noel Gouveia são mãe e filha e ciganas empoderadas. Criaram a AMUCIP, associação que é a ponte entre a comunidade cigana e não cigana. Ambas quebraram barreiras e lutam para que outras mulheres tenham mais opção de escolha, mas sem nunca deixar de lado as tradições ciganas.

 

A Olga foi a primeira mulher cigana a tirar a carta de condução. Como é que deu esse passo?

Olga: Sem dúvida que para mim foi um passo gigante. Como eu tinha a 4ª classe e os meus pais não tinham (nem o meu irmão homem) o meu pai optou por me dar esse presente. Como estava protegida pelos meus pais, foi mais fácil mas não faltou a censura. Logo passados uns 6 meses houve outra mulher cigana a tirar a carta.

O meu pai era vendedor ambulante e houve uma altura que, com uma pessoa não cigana, fez um negócio de troca por um carro em segunda mão que ele tinha. Só faltava alguém que o conduzisse e a única possibilidade à vista era eu. Então o meu pai emancipou-me.

 

Existem grandes diferenças entre a discriminação das mulheres ciganas e não ciganas?

Olga: A nossa história cigana – e portuguesa – também vem dos portugueses não ciganos. As meninas não ciganas saíam para ir ajudar as mães nas tarefas laborais e ir tomar conta dos irmãos.

Continuámos com as nossas tradições mais fechadas para fazer com que não nos apedrejassem tanto. As mulheres ciganas que dão um passo em frente no caminho de libertação, sem se desviar daquilo que é ser cigana, têm outras formas de ver o futuro. Sou cigana com todo o orgulho que isso me dá, mas se não quiser ir para a feira, posso ser professora ou empresária, posso ser tudo aquilo que quiser ser sem nunca deixar de ser quem sou.

Noel: Eu acho que a abertura da mulher tem a ver com o próprio papel da mulher na sociedade, no governo, na família. A minha avó já o dizia: “O homem é a cabeça, filha. Tu simplesmente és o pescoço que apoia a cabeça. Mas não te esqueças que é o pescoço que faz virar a cabeça para direita e para a esquerda”. Então, suavemente, nós cada vez mais temos empoderamento.

 

Quais são os maiores desafios que uma mulher cigana enfrenta na sua vida?

Noel: Uma imagem limpa. Senão, dentro da sociedade, não tem voz. Não podemos “extravasar” muito fora das regras. Tento não sair muito à noite com o meu marido para sítios onde vão outros rapazes ciganos, porque eu sei que não é bem visto. É uma comunidade que censura muito, porque é muito baseada na imagem da mulher e do que é envolto à mulher.

 

 

Entrevista: Margarida Henrique | Fotos: Pedro Pinto Basto

Rita Paulos: “Existe um chapéu que é o sexismo, e um dos ramos do sexismo é a homofobia e a transfobia”

Rita Paulos é fundadora da Casa Qui, uma associação que trabalha com jovens LGBTI vítimas de violência. O seu percurso começou na academia mas o seu ativismo e interesse pelas temáticas do género e da população LGBTI fê-la passar por instituições como a rede ex aequo, a CIG e agora a Casa Qui.

 

Posso-te desafiar a falares um bocadinho sobre ti?

Claro! Eu tenho 38 anos, quase 39.  Sou de Lisboa, tenho família de origem fora de Lisboa (o meu pai e a minha mãe não são de cá) portanto a minha identidade também passa por essa geografia dos meus pais. Mas essencialmente cresci aqui. Sempre gostei muito das questões das Ciências Sociais e Humanas. Acabei por estudar Línguas, mas estive para ir para Direito (e hoje em dia acho que iria). Mas eu gosto bastante do que faço, portanto não há propriamente um arrependimento, ainda que talvez fizesse o percurso de forma diferente. O que é que eu posso contar mais sobre mim? Tenho uma formação ex-católica, que acabou por ser importante para mim na altura, mas desde muito cedo me fez confusão uma série de coisas. Na faculdade, depois de algumas leituras académicas sobre o cristianismo, deixei de ter fé, tornei-me agnóstica. E no meio deste processo todo tenho aqui dois caminhos paralelos: um que é eu começar a descobrir que sou lésbica e a lidar com essa situação, e ao mesmo tempo, já aqui na faculdade, o começar a entrar em contacto com as temáticas feministas, principalmente a estudar a primeira e a segunda vaga das sufragistas e a despertar para mim muito esta questão da igualdade entre mulheres e homens e a igualdade de género. E neste processo, apesar de adorar a licenciatura e tudo o que tinha, apaixonei-me por estudos culturais. E acabou por ser essa a área que eu depois quis especializar-me e fiz mestrado em Inglaterra, em Nottingham, em Estudos Culturais e Teoria Crítica.

 

Foi no mestrado que começaste a trabalhar com maior foco na área do género?

É aí que a minha dissertação se foca totalmente nas questões de género e em estudos de género. Resumidamente, o meu estudo foi sobre as questões da biologia e da cultura no género. Nós tínhamos antigamente a sociobiologia (que foi desacreditada) e temos agora a psicologia evolucionista, que é uma versão, entre aspas, mais aceitável. As pessoas que defendem esta corrente dizem que há diferenças entre os homens e as mulheres que têm a ver com a sobrevivência da espécie, ou seja, que determinados papéis, determinadas funções foram aquelas que fizeram com que a espécie sobrevivesse melhor. Então o que defendem é que há diferenças que são inatas e o meu trabalho foi muito desmontar isso, através de uma série de estudos que vão desde a maneira como as crianças são educadas até aos estímulos que são dados ou não em termos das áreas da matemática, das ciências, os brinquedos com que brincam, as brincadeiras que fazem… E também foi importante estudar outras espécies que têm modelos completamente diversificados de parentalidade, também para desconstruir. Porque muitas das vezes o argumento que era utilizado era que “Os animais também o fazem, por isso isto é natural”.

 

Pois, às vezes a natureza é a grande desculpa para a desigualdade, não é?

Exatamente. Inclusive para as mulheres não progredirem na carreira ou na academia, enquanto professoras… E uma das conclusões, que é para mim das mais importantes, é que quando dizes à partida a uma pessoa que não pode fazer isto ou que não é boa naquilo estás a criar uma alta oportunidade de uma profecia auto-realizada. E depois não estás a dar oportunidade às pessoas para desenvolverem aptidões. Quando nós temos, por exemplo, as miúdas a brincar às bonecas e não a correr e a trepar as árvores, à partida é óbvio que terão menos força física que os rapazes. Descobri um estudo neste trabalho em que se comparava a resistência física de mulheres de tribos africanas que desde crianças levavam os vasos da água com os cadetes americanos, e quem tinha mais resistência física eram elas, e não eles. Isto tudo é muito importante e é a partir desse trabalho todo que digo que as pessoas têm é que ser quem elas são e nós temos de dar oportunidade para elas desenvolverem aquilo que são os gostos, as competências e as aptidões que à partida têm ou que querem desenvolver.

 

Para além deste percurso académico tens depois um outro mais ativista…

Paralelamente tenho um outro percurso, que por acaso não está totalmente ligado, mas há um outro aspeto em que aqui a Faculdade de Letras também é importante para mim. Porque obviamente foi ela que me levou a um contacto mais a fundo com as questões dos estudos de mulheres e depois os estudos de género, mas ao mesmo tempo a primeira pessoa a quem me assumi foi uma amiga cá, no primeiro ano. Portanto este também acaba por ser um espaço que tem uma importância emocional para mim. Cerca de dois anos mais tarde dirijo-me pela primeira vez a uma associação, que é a ILGA Portugal, quando passou a ter um grupo de jovens. E começo então o percurso de ativismo, que me levou depois a criar uma rede de grupos de jovens em Portugal, a rede ex aequo, que cerca de um ano e meio depois ganha estatuto jurídico e torna-se associação juvenil. Isto acabou por me dar uma experiência, um conhecimento tremendo sobre as questões LGBTI, particularmente na juventude, mas também na infância. Na altura ainda não havia muitos estudos e o conhecimento que havia era muito de fora, do estrangeiro. Mas já havia alguns estudos interessantes. Por exemplo as questões da família, de ser um fator de risco enorme saberem – a taxa de suicídio sobe muito drasticamente se a resposta é negativa. Contudo, grande parte do conhecimento que eu adquiri foi através de dados de campo, foi de conhecer os jovens, de falar, de ler histórias, as situações deles… E no meio deste percurso eu não tinha imaginado vir a fazer desta área a minha profissão, mas eu de facto gostava muito. Adorei a minha licenciatura, mas não queria fazer nada com ela a seguir.

 

E desde aí até agora tiveste um percurso bastante preenchido…

Ainda chego a trabalhar profissionalmente para a rede ex aequo no primeiro, e creio que o único, projeto financiado que deu para contratar pessoas, e depois surge a oportunidade de vir para a CIG. Mas como era uma situação em que não se entrava na função pública não fiquei. Em 2007, houve uma mudança de posição, desencadeada pela Elza Pais, no sentido de incluir as questões LGBTI na igualdade de género, com a qual concordo e defendo. Depois surge a oportunidade de trabalhar na FNAJ na área da igualdade. Pronto, comecei a poder trabalhar profissionalmente nesta área como eu queria. A Casa Qui acaba por ser uma coisa que estava já na minha cabeça há muitos anos, porque nós na rede ex aequo tínhamos muitas vezes situações de emergência e de crise e não havia possibilidade de dar resposta, porque tinham de ser pessoas técnicas, profissionais, com respostas estruturadas e de outra envergadura. O trabalho da rede ex aequo há-de continuar por uns anos no apoio social e comunitário entre pares: eu digo sempre que é muito importante serem pessoas como nós a trabalhar umas para as outras, com um nível de identificação. E tanto que a regra foi sempre o limite dos 30 anos. De jovens para jovens. Acho que faz sentido a maneira como funciona. Eu não alteraria isso.

 

Rita Paulos

 

E a Casa Qui, é de quando, como é que surgiu?

Nós fundámos a Casa Qui no final de 2012, mas eu ainda estava a trabalhar e não pude dedicar-me logo. Acabámos por ter o primeiro projeto financiado no final de 2013, que foi justamente este estudo diagnóstico com as CPCJs e todas as instituições na área da proteção de crianças e jovens, nomeadamente na perspetiva da violência doméstica/familiar e na expulsão/saída de casa. E uma das conclusões que as pessoas que foram entrevistadas e que preencheram o questionário nos deram foi que de facto sentiam muita dificuldade em lidar com estas situações, não sabiam como proceder e sentiam falta de apoio técnico de terceiros ou então de encaminhamento. E o que começou a acontecer justamente foi que começámos a ter pedidos de algumas entidades para acompanhar e nós não tínhamos os recursos, porque não podemos funcionar em voluntariado. Isto é uma intervenção técnica e profissional. Aqui o Gabinete de Apoio à Vítima acaba por ser a resposta mais do que necessária para começarmos a fazer o trabalho, e tem-se notado: sem divulgação já tivemos uma série de pedidos, e agora que divulgámos recentemente os números estão a subir. E é realmente muito importante essa questão do espaço seguro e da segurança, porque é muito comum queixas de abordagens menos positivas. No próprio estudo de diagnóstico que fizemos temos relatos – provavelmente inconscientes, porque senão não teriam dito – de técnicos e técnicas de CPCJs que não têm consciência da gravidade do que estão a fazer, ou do que fizeram. É precisa muita formação e enquanto não existirem ou se deixarem de existir respostas especializadas nós vamos ter essas pessoas sem apoio e estamos a falar às vezes de casos extremos de pobreza, de sem-abrigo, de suicídio…  É muito importante existir este tipo de resposta.

 

E a nível da resposta que receberam de técnicos e de técnicas no estudo que fizeram: sentiram maioritariamente uma falta de conhecimento ou houve situações mais graves?

À partida houve um ou outro caso de recusa de dar a entrevista. Isso foi a primeira situação em que podemos dizer que houve uma atitude mais negativa. O que nós sentimos essencialmente é que, para já, podemos dizer que metade das pessoas têm abertura, interesse e uma posição positiva. Mas depois há aqui outro revés: este estudo não permitiu ver na prática o que é que acontece, e há uma diferença entre o discurso e a prática. Há pessoas que têm um discurso muito bem estruturado e que conseguem escapar. Por exemplo, a Gabriela Moita fez há muitos anos esse trabalho com os psicólogos, em que verificou que de facto havia psicólogos cujo discurso era um mas que depois a prática não batia certo. Portanto nós temos sempre de ter essa noção de que nunca vamos conhecer a realidade completa, podemos é juntar os dados das pessoas que passam por estas respostas e os dados dos próprios técnicos e técnicas.

 

Não foi a rede ex aequo que fez uma lista de psicólogos? Sei que essa lista foi uma tremenda mais valia dentro da comunidade…

Sim, a lista de psicoterapeutas. E foi esse o objetivo quando criámos esta lista. Foi mesmo de minimizar o número de pessoas que não pediam a ajuda de que precisavam porque tinham receio. Depois fez-se também de ginecologistas, que não sei como é que ficou, e também se tentou fazer de urologistas. Na área da violência, o que nós sabíamos era que mesmo nas respostas generalistas não tínhamos respostas para os homens com mais de 18 anos. Não havia nada, a única coisa que havia era para sem abrigos e os relatos que temos frequentemente dizem “Tirem-me daqui porque este ambiente é extremamente difícil”. Entretanto foi criada uma casa abrigo para homens. Ainda esta semana acabámos por ativar essa medida por um dos casos que tivemos. É a medida mais extrema que tomamos na área da violência. Sentimos também que o que ainda faz falta é um acolhimento de emergência temporário, e nós temos tido alguns casos que é só isso de que precisam. E elas eventualmente, quando vierem, mas têm sido muito os rapazes, porque não têm tido respostas suficientes na área da violência.

 

Porque a violência é uma estrutura muito vocacionada para mulheres, por razões óbvias… Uma mulher lésbica mais rapidamente é integrada numa resposta generalista na área da violência.

Sim, é isso que se passa. Mas por exemplo, temos tido casos de rapazes que até têm alguma estrutura, não estão assim tão desorganizados, mas que precisam de uma mão durante um, dois, três meses. E para esses casos o ideal seria ter essa resposta. E depois ainda temos outra situação, que são as respostas de 72h, das primeiras noites até se conseguir ativar uma resposta. Nós estamos a tentar ter algum financiamento extra para o Gabinete de Apoio à Vítima para este acolhimento de curta duração. E gostaríamos depois, com a abertura de financiamento próprio que está previsto, de ter um centro de acolhimento de emergência temporário. E com isto conseguimos fechar então, junto com a casa abrigo, o tipo de resposta necessária para estas situações mais extremadas que têm a ver com alojamento. Depois as outras, de intervenção na área da saúde mental, têm a ver com parcerias. Nós fazemos acompanhamento psicológico, que é muito importante, e damos apoio jurídico. Por exemplo, num dos casos que já tivemos ele estava numa situação absolutamente vulnerável, com um histórico familiar muito complicado em que, falando e ativando os recursos que tinha à disposição, o deixámos numa situação mais fácil de gerir. Às vezes basta isso, eles não sabem é o que fazer. E depois há aqui outra questão: se já é difícil uma pessoa ter sido vítima de um crime violento ou de uma violência, se já fica muito ansiosa, nervosa, desestruturada e se torna tão importante a existência de um técnico de apoio à vítima, quanto mais com o medo que a pessoa te vá tratar mal, que não vá perceber, que vá gozar, dizer que não tem importância… E eu acho que realmente o nosso papel aqui pode ser – e espero que esteja a ser até agora – muito valioso para estas pessoas.

 

A nível de políticas públicas, têm havido passos significativos para a população LGBTI?

Esse discurso das políticas públicas tem sido o meu discurso nos últimos anos. Nós agora temos quase tudo na área da legislação conquistado. Faltam as políticas públicas em relação a uma série de estruturas e respostas na área social, da saúde e da educação, que precisam de começar a fazer o que nós costumamos chamar de mainstreaming nesta temática. Nós só agora fomos com muita resistência integrados na CIG. E de facto esta Secretária de Estado está a fazer uma mudança de paradigma, está finalmente a dizer que esta é uma questão importante. Obviamente que estamos a falar de, estima-se, 10% da população quando as mulheres são metade, e o grande problema é que se pense que estamos a roubar recursos. Não, têm de ser criados recursos, o objetivo não é enfraquecer a área da igualdade, que tem a ver com mulheres e com homens, mas fortalecê-la. Mas ela fez essa mudança, e estes financiamentos que obtivemos para os gabinetes de apoio à vítima, é a primeira vez que o Estado português financia dedicadamente apenas a população LGBTI. E o que eu estava a dizer há bocado sobre 2007 é que houve uma mudança muito importante com a Elza Pais, que nestes anos vem a culminar com a Catarina Marcelino. A Elza Pais criou uma coisa que foi muito importante que foi, por exemplo, o facto de algumas organizações LGBTI passarem a estar no conselho consultivo e com isso terem acesso aos fundos europeus.

 

E quanto à questão que levantaste, acerca de acreditares que a alçada correta para a população LGBTI é precisamente a da igualdade de género?

Eu sou uma das defensoras de que as questões LGBTI devem estar incluídas na igualdade de género, porque estruturalmente existe um chapéu que é o sexismo e um dos ramos do sexismo é a homofobia e a transfobia. E percebe-se muito facilmente que a própria homossexualidade em si, a partir do momento em que não corresponde ao papel e expectativa de género pelo qual tu deves gostar de alguém de sexo diferente do teu, é uma profunda quebra. Ou seja, não te estás a comportar como um homem ou uma mulher se deveria comportar. A homofobia mais violenta é contra quem? Contra as pessoas que quebram a expressão de género! E muitas vezes nem sequer são homosexuais ou bisexuais. Portanto, e mais uma vez, aí está o sexismo. E então a transfobia nem se fala, não é? Quer dizer, a expressão de género gritantemente é “Tu não te estás a comportar como um homem ou como uma mulher” e a transfobia é “Tu nasceste com este corpo, tens é mais de ser o que é suposto seres”. E aqui eu acho que é fácil perceber que está tudo muito ligado, não é?

 

Contaram-me sobre o processo, a nível de clínica, de pessoas trans não binárias e que têm quase de criar uma persona para conseguirem “passar” na parte clínica da transição…

Neste momento temos uma pessoa não binária a ser acompanhada e sabemos que há essa dificuldade. Aliás, isto é tudo um mundo que ainda vai ser trabalhado, e ainda bem que neste momento a questão trans está a destacar-se, porque bem precisa e já estava em boa hora. Mas há aqui uma discussão necessária sobre as palavras “sexo” e “género” e a maneira como estão a ser usadas. Por exemplo, eu sou das pessoas – e não sou a única – para quem claramente “sexo” e “género” não é a mesma coisa. Quando estamos aqui a falar estamos a falar de identidade de género, não do género da pessoa. Porque o género é uma construção social. Se tu estás a dizer que tens o género feminino eu pergunto-te o que é o género feminino: é gostar de rosa, fazer bordados? Está a haver aqui uma salganhada tremenda em termos conceptuais e teóricos. Mas isto é uma discussão que vamos ter juntos nos próximos anos. E depois também há a questão do próprio corpo e da importância que se dá ao corpo ou não. Existem corpos: corpos com fisionomias diferentes, uns mais parecidos com uns e outros mais parecidos com outros. E isto é inegável, é a questão da fenomenologia: tu podes ter interpretações e discursos diferentes à volta de uma coisa material, mas que ela existe existe. O exemplo que eu uso sempre e que adoro – infelizmente já não me lembro quem é que o deu – é que se eu te mandar uma pedra à cabeça ela dói. Agora a maneira como tu interpretas de onde é que veio a pedra, se foi Deus, se fui eu, etc. é que pode variar. Nós no fundo estamos sobretudo a fazer o quê? Discursos sobre situções concretas, narrativas. E o que nós trabalhamos muito no fundo são as narrativas à volta do corpo: é o corpo que te faz dizer que tu és uma mulher, mas eu estou a fazer uma descrição com base na minha perceção do teu corpo. A perceção que eu tenho sobre qual é o teu corpo – porque o corpo de uma pessoa trans pode não ser aquilo que tu pensas – é que me leva a agir de determinada maneira contigo, inclusive discriminar-te ou não e criar desigualdade ou não, portanto isso é muito importante.

 

Rita Paulos

 

O que é que se passa, a teu ver, com as interligações entre o movimento LGBTI e o movimento feminista?

Em termos teóricos e conceptuais eu já disse que acho que estão enquadrados na mesma área. Agora em termos de movimento em si, nós no movimento LGBTI – e tirando a questão de devermos é estar a trabalhar interseccionalidades e transversalidades – temos muito a aprender com o movimento feminista, porque tem já umas décadas de história bem maiores do que nós e tem uma estrutura muito bem consolidada. Por exemplo, a nossa supervisão no Gabinete de Apoio à Vítima é feita pela UMAR. E faz sentido porque, para além de haver características comuns na área da violência, é das estruturas que existem com experiência que nós podemos beber e aprender. Portanto, essa ligação vai existir sempre: eu acho é que são áreas de intervenção dentro da igualdade de género que têm tempos diferentes, têm intervenções e história diferente, mas que nunca vão deixar de existir e de correr paralelamente. Agora, que isto pode ser trabalhado tudo em conjunto, pode. Tudo. Eu acho que parte do nosso problema tem a ver com falta de diálogo, e o que acontece também é que há instruções e orientações dadas e não se explica às pessoas porquê, porque é que vamos começar a fazer desta maneira, porque é que é importante. E eu notei isso no meu trabalho durante os últimos anos, principalmente com pessoas que estão mais focadas nos direitos das mulheres. Eu tenho um exemplo paradigmático de uma pessoa com grande responsabilidade, a quem expliquei isto que eu acabei de dizer, que mudou completamente de postura e passou a incluir. Até à altura falavam muito da agenda LGBTI como uma coisa à parte, e a partir daí perceberam que fazia parte e que estava integrado, que de facto temos de dar alguma prioridade. E isto depende tudo do discurso e do diálogo que temos. Obviamente vão sempre existir pessoas que estão contra a inclusão das pessoas LGBTI, mas também acho que temos muitas pessoas que já estão a perceber, e temos de conversar.

 

Entrevista: Inês Fernandes | Fotos: Rebeka Dávid

Teresa Ricou: “Se está a chover a gente tem que ir para a rua na mesma”

teresa ricou Mulher-palhaço, conhecida pela a sua personagem Teté no palco. Há 40 anos fundou o Chapitô, escola secundária e companhia de circo e muito mais: um lugar de trabalho artístico e de intervenção social.

 

 

Como encontrou este caminho do circo e trabalho social?

Sou uma mulher muito emancipada, rebelde, livre, autónoma, eu não peço licença nenhuma para andar. E fui construir o Chapitô e agora estou aflita o que é que faço com isto tudo? A minha família é da alta-burguesia, não tem nada a ver com esta minha vida. Ou tem tudo! Ça dépend. É um facto que esta força também vem da minha mãe que era uma mulher fantástica. O meu pai teve na erradicação da lepra, e nós éramos sete filhos, no interior das Áfricas. Estávamos isolados porque a leprose era uma doença contagiosa na altura. Eu via os leões a passar às nossas portas, foi uma vida muito interessante. E talvez tenha ficado um bocado essa parte, daquela gente mais complicada, que não tinha grandes oportunidades, e dediquei-me a isso através do circo. Éramos uma família grande, à portuguesa. E de repente, eu fugi dali para fora e lancei-me à vida aos 16 anos. Esta coisa do circo estava a atazanar-me há muito tempo porque eu era muito divertida. Ainda sou divertida, mas a administração mata-me.

 

Consegue ter tempo para atividade artística?

Só encontro tempo muito a correr, en passant, para estas coisas de criar e divertir, e isso faz-me imensa falta. O meu grande problema é que como não tive escolas eu sei fazer tudo, e faço, mas a parte administrativa é um sufoco. Não há muita gente que me acompanhe nesta polivalência que este projeto leva, porque é muito complexo e interdisciplinar. Tem muitas vertentes: a parte social, a parte de formação, a parte cultural e a parte da economia social. É um trabalho informal, mas com muito rigor. O Chapitô é um projeto que faz pensar.

 

Teresa Ricou

 

Voltou a Portugal apenas dois dias depois da revolução.

As mulheres estavam muito abafadas antes de 25 de Abril. Foi uma das razões que me fez ir embora, de me querer afastar daqui. Também não foi por razões políticas que não sou uma pessoa de política. Sou uma pessoa de causas, de política social. Sou uma agitadora, ativista, a construir: um cidadão do mundo e por acaso sou mulher. Quando voltei depois da revolução, comecei a fazer trabalhos de alfabetização em terras onde não chegava nada, não havia caminhos, não havia luz elétrica, nada. Como era palhaça eu animava as pessoas, captava a atenção delas e depois no final fazia lá o que era preciso. Foi um tempo muito interessante. Agora acho que as coisas estão muito instaladas. Na revolução o papel da mulher foi fundamental. Não foi muito visível, mas foi fundamental, pois contribuiu para a mudança desta sociedade, que as vezes é muito difícil fazer, que o people está todo muito instalado, muito confortável. Se há alguma coisa que destabiliza, estão assustadas, com tem-que-fazeres: “E pah, não sei, deixa ver… Ai, já não posso, que hoje está a chover”. Então se está a chover a gente tem que ir para a rua na mesma! Eu acho que é preciso todos os dias fazer a revolução.

 

Tem que estar sempre na luta?

Considero que a gente está sempre em guerra no mundo. Tem que haver um grupo de guerreiras, um grupo de elite para trabalhar para a população mais vulnerável. Agora é ao contrário. A gente, os melhores todos têm que trabalhar para quem não tem. É uma responsabilidade maluca.

 

Que planos tem par o futuro?

Queria ficar um bocado parada e sossegada, pensar na vida e digerir o que eu fiz. E quero voltar a ensaiar, a treinar e espero ter ainda tempo para isso, porque é isso que quero fazer. Mas é meio difficile. Como dizia o Zé Mário Branco na Inquietação, eu não pus o barco no mar para o abandonar. O Chapitô é assim: ainda estamos no mar, já tivemos tempestades, mas agora está mais ou menos tranquilo.

 

E como vai ser o futuro do barco?

Ai, eu vou chegar a terra! Tenho de chegar a terra. Está quase, mas está difícil. Mas o rumo está lá, está lá direitinho. Só tenho de seguir os caminhos par lá chegar. Não estamos à deriva, mas a gente de vez em quando tem que se desviar, ir para aqui ou ali, porque o barco está cheio de gente. É bom que o people não se afunde. Se nos afundamos, só se salva quem sabe nadar e há muita gente que não sabe nadar, não é?

 

Teresa Ricou

 

Entrevista e fotos: Borbála Kristóf

Daniela Bento: ” É preciso transformar o político em comunitário, em pessoas”

Daniela Filipe é engenheira de software e astrofísica. Integra atualmente a Direção da ILGA, coordenando o Grupo de Reflexão e Intervenção Trans, onde não se poupa à desconstrução das estruturas sexistas e patriarcais numa lógica de intervenção comunitária transfeminista.

 

Fala-me sobre ti. Quem és, o que fazes, como te sentes?

O meu nome é Daniela Filipe. Neste momento trabalho como engenheira de Software, sou estudante de astrofísica e adoro fotografia, arte e escrever. Participo em vários projetos como a “Capazes” e o “Esqrever”. Sou atual membro de Direção da ILGA e sou coordenadora do GRIT, que é o Grupo de Reflexão e Intervenção Trans da ILGA.

 

O que é o GRIT?

O GRIT já passou pelo período em que era o Grupo de Reflexão e Intervenção para a Transsexualidade, mas já se fez esse upgrade. O GRIT em si é um grupo, mas damos apoio direto a pessoas que pedem ajuda dos mais variados tipos por e-mail ou telefone. Temos também um grupo de partilha, que se organiza tipicamente de três em três semanas no Centro, que é um grupo só para pessoas trans ou pessoas que estejam a descobrir a sua identidade, onde podem esclarecer todas as questões e desconstruir-se num espaço seguro. Ainda me lembro que na primeira reunião era só eu e um meu colega, mas neste momento já somos mais de 40 pessoas, um crescimento brutal. Depois também organizamos grupos de trabalho constituído pelas pessoas do grupo que têm interesse em entrar no ativismo, ou que querem começar a criar documentação ou algo que seja útil para outras pessoas. E temos também aquilo que é a parte pública, de comunicação. Todos os meses tentamos organizar uma tertúlia sobre temáticas de género. É que a ideia do GRIT é também ser um grupo de empoderamento. Não queremos que as pessoas estejam ali só porque são todas trans e têm uma opressão em comum, mas porque também queremos empoderar pessoas e dar-lhes ferramentas para chegarem à rua e terem mais capacidades.

 

Portanto, o GRIT tem como objetivo não só um espaço seguro para pessoas trans mas também um sítio de conversa e discussão sobre questões de género mais alargadas. Isto levanta-me uma questão que gosto sempre de fazer: o que faz uma boa aliada?

Todas as pessoas que se aproximam do GRIT aproximam-se com um objetivo, e eu não posso definir o que é que essa pessoa é. O facto é que o mundo trans é muito alargado, é um conjunto de experiências extremamente gigante, é muito interseccional, e muitas vezes procurar aliados é também tocar em assuntos com os quais as pessoas sentem empatia. Lembro-me de discutir coisas sobre expressão de género: porque é que a expressão de género é importante às vezes e porque é que se discute tanto a expressão de género nas questões T? Porque é a maneira que temos de ser reconhecidos socialmente, e quando se discutem questões de género ou comportamento com pessoas que não se identificam como trans, essas pessoas podem chegar à conclusão de que às vezes os seus pensamentos são um bocadinho normativizados e que não fazem muito sentido. E às vezes a maneira ideal de procurar aliados é pegar em coisas que as pessoas conseguem facilmente identificar. Nós não temos dificuldades em arranjar alcunhas para as pessoas e passar a chamá-las por essas alcunhas. Mas temos muita dificuldade em dizer “Eu quero que me tratem por este nome”. As pessoas resistem.

 

Consegues-me falar um bocadinho sobre o caminho que o movimento trans tem feito?

Sim! A questão trans é muito eurocêntica, americanizada. O termo transexual aparece perto da altura em que surgiu o termo homosexual – que surgiu antes de heterosexual. Depois os movimentos ativistas fizeram o push para falar de pessoas transgénero – porque estamos a falar de género – e a palavra trans acabou por ser a mais inclusiva, porque abarca todas as formas e identidades não normativas que conhecemos. O termo transexual continua a ser muito clínico, e porque é que nos queremos afastar desse termo? Se eu digo que sou trans tu sabes que eu tenho uma identidade não normativa; se eu digo que sou transexual tu sabes logo que eu tenho uma genitália mudada. O que nós temos de aprender é que, por exemplo, nem todas as pessoas trans querem ser operadas, nem todas querem fazer o tratamento hormonal, algumas pessoas trans querem mudar só o nome…. A diversidade é tão grande que nós não podemos resumir a pessoas que fazem operações ou que não fazem operações. Em Portugal, a lei que está em vigor ainda fala em perturbação de identidade de género (ou a disforia de género). E no ideal e utopicamente, o que eu queria era ser uma pessoa com as suas necessidades que as quer ver cumpridas, e quero-me ver respeitada e reconhecida por aquilo que eu sou. O que nós temos são pessoas que de facto, dentro daquilo que é a normatividade de género imposta pela sociedade (lá está, o nosso sistema cis-hetero-normativo), quebram essa caixa e dizem que querem ser muito mais. A nossa genitália não nos determina na sociedade.

 

Daniela Bento

 

Podes até sentir mais afinidade com uma caixa mas sem que essa caixa te prenda..

Sim, o que eu quero é que ao longo do tempo as minhas necessidades possam ser correspondidas. Porque as pessoas mudam, descobrem-se ao longo do tempo. Por exemplo, uma das coisas que é muito clássica das questões T é a forma como as pessoas se sentem, o facto de terem o género não conforme desde pequeninas. Mas há pessoas que não sentem isso, há pessoas que só sentem mais tarde… Eu, por exemplo, senti coisas muito diferentes. Vim de um meio muito conservador, ribatejano, onde as pessoas querem é touros, cavalos e vinho. Eu costumo dizer que eu fiz vários coming outs, para aí sete. Primeiro fiz o coming out enquanto pessoa bi. Depois descobri a palavra pansexual, que me fez mais sentido.

 

Queres explicar muito rapidamente o que é que quer dizer pansexual? E como é que é diferente do bi?

A questão bi também está a ser redefinida, porque os termos também evoluem. Mas antigamente o que acontecia era que a palavra bi estava muito associada ao facto de tu gostares de homens e mulheres. A palavra pan apareceu no contexto dos não binarismos, de uma forma mais genérica para se referir a pessoas. Por exemplo, eu fiz o meu coming out enquanto pessoa bi, mas depois fez-me muito sentido passar a pan porque também me identifico como pessoa não binária. A ideia de bi, hetero, homo, privilegiam a sexualidade – ou a genitália desta pessoa – numa lógica de “tu gostas de alguém na especifidade de ter um pénis ou uma vagina”, e o termo pan para mim é dizer “Aquela pessoa, aquelas características físicas dela, sejam genitais ou não, são tão importantes como outra característica”. Está tudo na mesma linha, e a minha capacidade de gostar de alguém está no facto de olhar para aquela pessoa como integral e é por ela que me apaixono, é a pessoa primeiro e depois as suas características. Nesta sequência fiz o meu coming out enquanto pessoa pan, depois fiz o meu coming out enquanto pessoa trans – rapariga trans, que era aquilo mais próximo do que eu conhecia mais próximo da minha expressão. E depois é engraçado, porque eu lidei muito tempo com comunidades online de pessoas trans e pessoas que faziam cross dressing e eu não sabia o que era ser trans. E eu estava lá, e eu estava a coordenar grupos, tinha encontros todas as semanas com essas pessoas, e falávamos de cross dressing, no desejo disto e daquilo. Mas eu nunca soube realmente o que era o termo trans: para mim aquilo era tão inerente a mim, tão naturalizado, que eu nem sabia nada sobre o que é que era ser trans, ainda que já fosse vivido. E depois comecei a descobrir sobre não binarismos – porque não me sentia totalmente bem em vários espetros – e percebi que sou uma rapariga porque é o que o sistema binário me permite ser, e sou trans e não binária porque é o sistema em que eu acredito. Depois fiz o coming out enquanto pessoa poli e anarco-relacional. Isto para dizer que de facto passar muito tempo nesta desconstrução dá-nos muitas ferramentas, e para muitas pessoas este processo é muito importante.

 

Sentes que existe confusão entre o que é a expressão e o que é a identidade de género?

Houve uma amiga minha que me dizia: “Então, mas tu podes vestir roupa feminina na mesma e ser mais feminina e gostar de homens na mesma, isso não é um problema”. E eu tive de lhe dizer que o problema era que não me identificava como sendo rapaz. Eu identifico-me com pessoa não binária, mas sou muito pró identidades femme. Acho que há um problema enorme sobre as identidades femme, que são sempre consideradas mais frágeis e etc.. Digo sempre que ainda que fosse um rapaz cis acho que uma coisa importante é este push da fragilidade e este combate à ideia de que tudo o que é feminino é frágil. Por exemplo, quando estou muito mais feminina as pessoas dizem que estou a bater certo com o género, porque mudei de nome. Mas há outras alturas em que eu pareço um rapazinho, e isso não anula a minha identidade. É só a minha forma de expressão naquele dia. Isso acontece-me muito na clínica. Na clínica tenho de estar constantemente a dar provas sobre quem é que eu sou, exatamente porque tenho uma expressão de género muito variada, e o facto de não ter um papel normativo enquanto rapariga atrasa-me o processo todo.

 

Se te sentires confortável gostava de te perguntar sobre esse processo. Quanto tempo, que obstáculos? Como é que funciona esse mecanismo?

Se calhar vale a pena entrar num contexto histórico, do que é a lei em Portugal, porque estamos prestes a discutir uma nova lei. Neste momento estamos sob a alçada da lei de 2011 e antes não havia nada na lei que dissesse que as pessoas podiam mudar de género. O que acontecia era que as pessoas se submetiam a um tratamento, estavam com médicos, tinham de fazer a prova de vida (que significava a pessoa provar que vivia o género que sentia durante dois anos) e o psicólogo depois assinava um relatório para a pessoa poder proceder. Como não havia uma lei em específico arranjou-se este mecanismo, e as pessoas faziam o tratamento, conseguiam que o psicólogo assinasse a declaração, faziam as operações e, no fim de terem as operações feitas, metiam um processo contra o Estado a dizer “Vocês são culpados da minha condição” para poderem validar a sua identidade no cartão de cidadão. E este processo era feito pela medicina legal, eram apresentadas fotos da genitália nova da pessoa em tribunal…

Tens casos ridículos, de pessoas cuja vagina não tinha profundidade suficiente, pessoas que nunca tinham falado de moda e portanto não podiam ser consideradas mulheres. No fim o juiz declarava se aceitava que essa pessoa mudasse ou não. E estamos a falar de pessoas que já tinham as operações feitas, que já tinham uma vivência social mas que tinham ainda o nome original. E na lei de 2011 – que na altura era uma das melhores leis do mundo – deixava de ser necessário todo este processo clínico, e não precisavas de ser operada, não precisavas de fazer tratamentos para mudares legalmente o nome. O que tu precisas agora é de um diagnóstico de perturbação de identidade de género, que na altura era o que estava no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). E o que aconteceu nessa altura foi que as pessoas passaram a ter um acesso mais prático à lei, mas ao mesmo tempo foi criada uma lista de médicos que pode assinar esse diagnóstico. Mas hoje em dia o processo é incoerente: por exemplo, muitos dos médicos que assinam estes relatórios estão no privado, o que faz com que muitas pessoas não tenham acesso à clínica, e os médicos que estão no público, muitos deles são conservadores. Tu precisas, supostamente, de um relatório para iniciar tratamentos hormonais e para fazeres cirurgias top, precisas de uma segunda avaliação de uma segunda equipa independente, e depois precisas de autorização da Ordem dos Médicos para se quiseres fazer uma cirurgia de reassignação sexual.

O que nós estamos a dizer é que as pessoas levam duas avaliações, têm uma autorização da Ordem dos Médicos (é o único procedimento clínico em Portugal que a Ordem dos Médicos precisa de aprovar) e o problema é que o diagnóstico é tendencialmente baseado em estereótipos de género, há um processo normalizador. Não há maneira de diagnosticar identidades, mas o que acontece nestes processos clínicos é normalizante: se tu vestes saias, se és heterosexual… E o que é que acontece? Isto basicamente faz com que muitas pessoas, quando chegam à clínica, acabem a contar uma história. É mais fácil contar uma história que bata certo com estes estereótipos todos. Eu acho que a saúde é um bem para toda a gente e deve ser acessível em todas as necessidades que as pessoas têm. E se eu, como pessoa T ou não, sentir necessidade de ter consultas para me acompanhar é uma coisa. Outra coisa é estar em consultas simplesmente para dizerem quem é que devo ser.

 

Pois, até com a tomada de hormonas, por vezes oiço que pode ser um processo durante o qual as pessoas querem ser acompanhadas…

Mas lá está. Mesmo nessas alturas queres ser acompanhada por alguém que te entenda, mas não, tens sempre de ter um tratamento com um médico autorizado. Eu por exemplo já sou acompanhada em terapia há alguns anos e perguntei porque é que não podia ser a minha terapeuta e o meu médico que já me acompanhavam há anos a assinar relatórios, porque eles já me conhecem desde sempre. Mas não, eles não podem fazer nada. A opinião deles não vale de nada. E no entanto são as pessoas que me conhecem e me acompanham. Isto é muito crítico. Um médico que me vê de mês a mês, ou de dois em dois meses durante quinze minutos, o que é que ele vai avaliar ali? Por exemplo, eu tenho muita dificuldade, porque a minha experiência não se enquadra naquele discurso em que eu sempre vivi super disfórica com o meu corpo e etc. Mas eu simplesmente quero fazer um tratamento ao meu ritmo para aprender com o meu corpo em vez de fazer tudo de repente. Claro que para outras pessoas é urgente fazer mais rápido, mas lá está, o tratamento deve ser de acordo com cada pessoa. Estamos a falar de uma população que tem uma taxa de depressão e suicídio muito alta, exatamente porque não se trata só de a pessoa se sentir mal e ter de perceber o que é que pode fazer em relação a si no seu processo desconstrutivo, como passa também por desconstruir a questão clínica e esse processo de normalização clínico, aos quais se acrescenta a enorme pressão social. Eu lembro-me de passar muito mal quando fiz o meu coming out no trabalho. Passei de um registo em que era rapaz engenheiro de software e de repente era uma rapariga e tinha de cumprir com tudo. Reclamavam até por andar com coisas nos bolsos. Porque o facto de seres trans dá-te um policiamento enorme por parte das pessoas. No primeiro dia em que apareci no trabalho já com o nome mudado, apareci basicamente com a mesma roupa que tinha antes. Porque sou eu. E as pessoas pensavam que eu ia aparecer com lantejoulas, com uma peruca ou assim. E basicamente a política de inclusividade foi criar um gueto para mim. Por exemplo, eu ia à casa de banho das raparigas e elas não diziam que era a casa de banho das raparigas, diziam que era a minha casa de banho.

 

Daniela Bento

 

Realmente a comunidade trans tem taxas assustadoras de tudo o que é mau: violência, discriminação… Consegues-me falar um bocadinho sobre o que é que é ser trans em Lisboa?

Eu tenho uma questão de interseccionalidade grande. Mas para mim é claramente diferente viver aqui ou viver em Santarém, porque em Santarém não podes fazer exploração identitária e aqui podes. Quer dizer, podes mas com alguns limites. Mas ainda assim a comunidade aqui em Lisboa não tem muitos espaços trans friendly. Começam a aparecer alguns espaços queer, o que é fantástico, mas realmente ainda temos muitos poucos espaços trans-friendly que sejam efetivamente espaços queer e espaços pan realmente inclusivos. O único sítio onde tive um problema numa casa de banho foi num bar LGBT: começaram a bater à porta e a fazer um estrondo quando estava na casa de banho das raparigas, e estava vestida de forma feminina e tudo… Mas lá está, a tua capacidade de te integrares tem muito a ver com a tua passabilidade. Lembro-me que eu comecei a ir à casa de banho das raparigas sem ter o meu BI mudado, mas havia alturas em que eu pensava “Mas eu hoje pareço um rapaz” e ia para outro lado, porque também é uma questão de proteção pessoal. Aquela altura em que eu tive o meu cartão de cidadão mudado foi a primeira vez que olhei de frente para o espelho numa casa de banho das raparigas. Reentrei para o ginásio aqui há um tempo, e com o cartão de cidadão no feminino significa que posso ir para o balneário das raparigas. E aos poucos estou a tentar conquistar o meu espaço: não me dispo integralmente, o que para mim é irónico tendo em conta que não tenho problemas nenhuns com a nudez. Mas vês-te no meio de pessoas que estão nuas, a confiar que não está lá nenhum rapaz, e eu estou ali com a toalha e a pensar “OK, espero que não percebam que eu sou um corpo masculino aqui”, porque ninguém sabe como é que eu me chamo. As pessoas ainda confundem muito orientação sexual com identidade de género. E vem uma pessoa que é trans e a primeira coisa que lhe chamam é paneleiro ou traveca… Lá está, um rapaz pode ser super feminino e ser hetero na mesma, ou whatever. As pessoas são como são. Temos de aprender a dissociar isto tudo, porque são questões diferentes. E depois existem imensas pessoas trans que devem conviver connosco todos os dias e nem sabemos. Existem pessoas que se calhar querem a oportunidade de explorar a sua identidade e não têm esse espaço.

 

Fala-me do ativismo LGBT em Portugal: como o descreverias?

Maioritariamente tem sido um ativismo mais G do que LGBT. Não esqueçamos que todo o movimento LGBT começou por uma luta de pessoas trans negras e muitas delas trabalhadoras sexuais em Stonewall. E nós comemoramos todos os anos a marcha do orgulho, e estas pessoas quase que perderam a visibilidade ao longo destes anos todos. E acho que o movimento tem sido muito à volta daquilo que é a questão G, ainda que já comecem a aparecer questões L. As questões Bi continuam muito invisíveis, mas começam finalmente a ganhar alguma visibilidade. Mas lá está, as questões T têm especificidades de lei, de saúde diferentes das outras. Enquanto, por exemplo, as questões LGB são muitas vezes questões mais políticas as questões T têm muitas preocupações com saúde envolvidas. E só nos últimos anos é que realmente se começou a ouvir falar de grandes movimentações à volta da questão T. Eu comecei no ativismo não há muito tempo, mas a verdade é que isso é uma demonstração de como a informação estava escassa, porque eu passei anos e anos a trabalhar com comunidades trans e não sabia sequer o que era ser trans, porque não havia essa visibilidade. É uma coisa que eu acho que em termos de ativismo, para além de ser difícil pela diversidade da comunidade, é estrutural. É estrutural porque mexe com uma problemática que temos que é a questão do género, a diferença de género, a desigualdade de género. Os transferminismos mexem com todo aquele conservadorismo de género, e aqui há uma resistência muito grande, e é preciso uma grande pressão para que as coisas mudem.

 

Tem-se dito que tem havido um grande progresso a nível de políticas públicas nos últimos anos a nível das questões LGBT. Onde é que estamos, o que é que falta, o que é que correu bem e onde é que queremos chegar?

Eu acho que, por exemplo, a lei de identidade de género de 2011 na altura parecia um marco, e até foi uma coisa positiva. Disse que as pessoas trans deixavam de ter de fazer processos contra o Estado para terem a sua identidade reconhecida, mas essa lei já está ultrapassada. Neste momento estamos a discutir uma nova lei, que é a lei da autodeterminação. E o facto é que nas questões T em particular nada mais tem sido feito. Acho que o casamento entre pessoas do mesmo género, a questão da PMA foram particularmente importantes, assim como a adoção, a coadoção. De facto começou-se a reduzir a discriminação legal. Do ponto de vista das questões T não têm havido tantas coisas novas a nível legal: ainda falta pôr na Constituição a proteção da identidade de género. Só em 2014/2015 é que a identidade de género entrou como critério de discriminação no código de trabalho. Mas depois, por exemplo, temos tudo aquilo que é político, e o político tem de se transformar em social. Temos de pôr as questões da sexualidade e da identidade como parte dos manuais escolares, falta chegar à educação, às forças de segurança… Nós temos o Observatório da Discriminação, e sabemos que as pessoas muitas vezes não fazem queixa por receio de discriminação por parte das forças de segurança. É preciso transformar o político em comunitário, em pessoas.

 

Achas que o transferminismo é o futuro?

Eu acho que em parte pode ser muito bom as pessoas começarem a pensar em moldes de transfeminismo. Porque o transfeminismo obriga-nos a desconstruir uma série de conceitos sobre as pessoas, e também tem uma história. O transfeminismo veio do feminismo interseccional, que veio por sua vez do feminismo negro. É o transfeminsmo que em si já inclui todas as intersecções de pessoas e opressões diferentes. Nesse sentido acho que é um passo, porque é super inclusivo. Claro que se calhar mais tarde vão existir outros feminismos que vão incluir o transfeminismo e que vão ser extensões dele.

 

Entrevista: Inês Fernandes | Fotos: Rebeka Dávid

Sofia Neves: “No que depender de mim, cá estarei para travar todas as lutas que forem necessárias”

Sofia, uma sonhadora que não baixa os braços. Presidente e fundadora da Associação Plano I , um sonho que há muito embalava. Encontra na investigação científica a forma de dar voz a quem o Mundo, de alguma forma, silencia. É docente universitária e neste papel compromete-se com a lógica

 

 

Como surgiram as questões dos Direitos Humanos e mais propriamente as questões de género na sua vida?

Eu acho que comecei a ter consciência dessas questões ainda na faculdade, muito por influência da Prof. Conceição Nogueira que viria a ser depois minha orientadora de doutoramento. Foi no âmbito da psicologia comunitária onde essas questões naturalmente são abordadas e eu comecei a perceber que havia todo um mundo para descobrir que até ali eu não conhecia. Mais tarde quando iniciei o meu estágio académico, no comando da PSP de Braga, comecei a trabalhar com vítimas de violência de género e a minha monografia foi sobre esse tema e portanto tive de fazer uma incursão pela história, onde me deparei com os feminismos. Um outro Mundo novo que descobri na altura e a partir desse momento não deixei de interessar-me por esta área. E portanto todo o meu percurso quer académico quer profissional tem sido construído muito em torno desse objetivo: trabalhar em prol dos Direitos das Mulheres.

 

E os ativismos, como começaram a surgir?

Eu costumo dizer que sou uma ativista académica e portanto tento aliar o meu papel enquanto professora e investigadora ao meu papel de ativista. Terá sido no ano de estágio que essa questão se terá começado a esboçar e, portanto comecei a estar mais perto de algumas associações de mulheres, de algumas associações feministas. Comecei a fazer algum tipo de pesquisa de informação acerca de como me envolver em algumas atividades que pudessem, fora da academia, ter algum impacto na vida das mulheres. E portanto, quando me lembro de mim enquanto profissional, lembro-me de mim enquanto ativista. Foi um momento quase que de congregação de vontades: vontades profissionais, vontades académicas e vontades ativistas também.

 

Fez questão de se afirmar como feminista há algum tempo. Quais foram as reações que foi encontrando ao longo deste percurso relativamente a essa posição?

As reações iniciais eram reações de estranheza. Como se anunciar que era feminista era algo inesperado, até porque comecei a perceber os feminismos como algo académico e portanto falava dos feminismos em contextos académicos e isso criava certa desconfiança até. Progressivamente, e isso tem que ver com a própria mudança dos país, nos últimos anos, penso que as questões feministas têm vindo a ser cada vez mais aceites e que já há outra forma de olhar para os feminismos. Embora nem sempre se perceba o que significa exatamente ser feminista. Eu faço questão em afirmar esta minha identidade porque entendo-a como uma posição ideológica. Como um compromisso político que assumo perante os diferentes contextos em que trabalho.

 

Tem um filho com 10 anos. Como é uma mãe feminista no desafio de educar um pré-adolescente?

 Eu acho que educar, hoje em dia é uma desafio. Educar um rapaz, é um desafio ainda maior. Eu tive essa consciência quando percebi que ia ser um menino. E portanto o que tento, no dia-a-dia é passar-lhe os valores da igualdade, da democracia, da justiça social, confrontando-me com os obstáculos com os quais ele se depara no dia-a-dia. O sistema não está pensado para ser igualitário, nem para ser democrático, nem para ser justo e portanto eu costumo dizer, são batalhas diárias que vamos ganhando, tornando-o um cidadão mais consciente do mundo que o rodeia.

 

Neste momento está envolvida num projeto novo, um projeto seu, o Plano I. O que é este projeto?

Este projeto já estava delineado à alguns anos. E eu achei que a zona Norte precisava de um novo impulso em termos associativos, portanto, em 2015, com um conjunto de pessoas de diversas áreas, decidimos criar esta associação, a Associação Plano I. O “I” procura trazer aqui as questões da Igualdade, da Inclusão, mais da Insubmissão. E esta associação rege-se pelo princípio dos Direitos Humanos. Procuramos estar na linha da frente trabalhando em áreas que possam promover os Direitos Humanos, não apenas os Direitos Humanos das Mulheres, mas de todos os grupos socialmente mais vulneráveis.

 

Uma das grandes conquistas para a Associação foi a abertura de um centro de apoio à população LGBT, no Norte. Como surgiu e o que representa para si?

O centro Gis foi um desafio que a Sra. Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade lançou à Plano I, que acolhemos com muito agrado porque sentíamos que era uma necessidade na zona Norte. Com o apoio da C.M. de Matosinhos foi possível, em Novembro de 2016, assinar uma carta de compromisso para a criação deste centro, que é um centro de respostas às populações LGBT; e em Janeiro de 2017, abrimos as portas. Ele está a funcionar, sendo muito procurado e tendo já um conjunto de casos complexos, o que significa que a resposta era mesmo necessária e portanto viemos cobrir uma área que estava a descoberto na zona Norte do país.

 

Quais são os próximos passos da Plano I?

 A Plano I tem agora um novo desafio que passa pela implementação de um projeto de prevenção da Violência no Namoro em contexto Universitário. Arrancou esse projeto em 14 de Fevereiro de 2017 e portanto vamos procurar desenvolver um trabalho com uma universidade, numa lógica mais piloto / experimental nesta primeira fase, criar também um gabinete de atendimento para vitimas de violência no namoro, e fazer todo um trabalho de formação e sensibilização… E, no fundo, de transformação social porque o que queremos é cultivar uma cultura de zero violência e não tolerância à violência e achamos que isso só é possível através da educação.

 

Ana Sofia Neves

 

Neste seu percurso enquanto ativista, feminista, psicóloga. Há alguma história que a tenha marcado?

Houve uma história que é relativamente recente e que aconteceu numa altura em que eu estava a coordenar um projeto financiado pela CIG que implicava, entre outras ações, a intervenção em grupos de mulheres vítimas de violência de género. Nesse projeto uma das participantes dos grupos foi assassinada pelo ex-companheiro. Essa situação em concreto fez-me refletir sobre os riscos da nossa própria intervenção uma vez que nos propomos promover a igualdade mas nem sempre a conseguimos conquistar portanto a morte desta mulher a somar à morte de tantas outras em Portugal faz-me acreditar que tenho feito nos últimos 17 anos, não é ainda suficiente. E portanto espero continuar com o mesmo fôlego, com a mesma energia para que este tipo de fenómenos  não venha a repetir-se, embora não depende de ninguém em particular, de ninguém individualmente, depende sim de um esforço e de uma vontade política e de um esforço social que eu acho que esta a acontecer, mais devagar do que eu gostaria, mas que está a acontecer progressivamente.

 

Quais são os caminhos da igualdade em Portugal?

Os caminhos da Igualdade, para mim, passam inevitavelmente pela educação. Temos que apostar na educação de base, na educação formal e informal mas temos de começar desde muito cedo a trabalhar às questões dos Direitos Humanos, as questões da igualdade de género, da não violência, na escola com as crianças, para que elas cresçam com esta cultura e que se tornem responsáveis pela prevenção da violência e pela promoção da igualdade. Os caminhos passam precisamente por ferramentas que nós temos obrigação de criar com os mais jovens e as mais jovens para que se passe o testemunho, porque é preciso criar uma nova geração de feminismos, é preciso adapta-los às novas exigências e realidades e só fazemos isso promovendo a reflexão e a consciência critica face aos problemas sociais.

 

Além do Plano I também concretizou há pouco tempo um dos seus objetivos de escrever um livro infantil. Como foi essa experiência?

Foi mais um desafio, e eu estou a repetir a palavra desafio varias vezes porque realmente têm sido muitos desafios. Este livro surgiu também de uma parceria amiga e colega psicóloga e com um ilustrador que também é psicólogo, curiosamente. E decidimos então de forma ficcional criar uma história de uma família homoparental, tentando desconstruir uma série de estereótipos relacionados, por um lado com as questões da homoparentalidade e por outro também com as questões de género. Trouxemos também para o debate as questões da pobreza, as questões da discriminação, as questões da cigano-fobia. Aproveitamos o livro para criar um instrumento de trabalho que possa ser usado nas escolas. Aliás, o livro foi recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para que as crianças através da educação possam começar a pensar nestes temas o mais cedo possível.

 

Quais são os próximos sonhos da Sofia a ganhar espaço?

São tantos os sonhos…Eu tenho varias plataformas de luta e portanto continuo a querer ser professora, investigadora, ativista… Os sonhos no fundo acabam por ser uma continuidade daqueles que já foram sonhados e que visam prosseguir o que tenho feito e o que o país tem feito nesta matéria, e portanto espero realmente conseguir cativar mais pessoas para esta luta que não é só minha, é de todos e de todas. E espero sinceramente que Portugal se transforme num país melhor, mais consciente das suas dificuldades e fragilidades. E no que depender de mim, cá estarei para travar todas as lutas que forem necessárias.

 

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

 

 

 

Elisabete Jacinto: “Há gestos que fazemos que são absolutamente discriminatórios na educação e nem paramos para refletir um bocadinho sobre isso”

Elisabete Jacinto é a única mulher a pilotar um camião em competições todo o terreno com regularidade. Era professora de Geografia até decidir que a sua paixão pelo todo o terreno merecia a sua dedicação a 100%. Não se esquece nunca dos desafios acrescidos que uma mulher nesta modalidade enfrenta, e espera poder ser um exemplo para jovens que queiram quebrar estereótipos.

 

Para começar, gostava de lhe perguntar sobre o seu percurso. Como é que se descreve?

Apesar de todas as coisas que tenho feito eu considero-me uma mulher perfeitamente comum, igual a todas as outras. Tive uma infância absolutamente normal, uma educação super clássica, daquelas que dizem que os homens fazem uma coisa e as mulheres fazem outra completamente diferente. Estudei, tirei o curso de Geografia, tornei-me professora. Mais tarde, quando estava já a leccionar, eu e o meu marido decidimos tirar a carta de mota. Eu porque não tinha ainda carta de carro e ele porque tinha tirado carta de carro e não tinha ainda de mota. Tirámos a carta de mota e comprámos uma mota para os dois, uma 125 daquelas de guarda lamas alto, tipo motocross. Nessa altura o Jorge estava a trabalhar numa empresa: tínhamos um carro (ou ele tinha um carro, não é, que já era dele). Ia para o emprego todo engravatado, de carro, e a mota ficava na garagem. Então eu comecei a utilizar a mota como meio de transporte na cidade.

 

Estamos a falar de que ano, mais ou menos?

1985/86, por aí. Para mim tinha uma certa graça. Mais tarde, pela graça de ter uma mota tipo motocross, inscrevemo-nos num clube todo o terreno. Lembro-me de ir fazer um passeio com o Jorge. Nessa altura ele já tinha decidido comprar uma mota maior para ele: porque um homem não anda de 125, não é? E então já tinha cada um a sua mota: eu andava com a 125cc e ele andava com a Honda de 600cc. E fomos fazer um passeio que era a Ronda dos Castelos, ao qual eu fui sem experiência. Mas no final olhámos um para o outro e pensámos que tínhamos descoberto o hobby da nossa vida. E foi aí que começámos a brincadeira de todo o terreno a sério – comprámos as revistas da especialidade, líamos os conselhos dos craques e depois ao fim de semana tentávamos pô-los em prática. Era uma galhofa enorme, nós os dois sozinhos ou então com um grupo de amigos. As passeatas começaram a ser cada vez mais animadas e o grupo cada vez maior. E a certa altura há um deles que decide fazer uma prova de competição, e desafia todos os outros para a ir fazer. Eu, claro, como boa mulher pus-me logo à parte, mas eles olharam para mim e disseram que eu também tinha de vir, que existiam outras raparigas e que eu sabia andar bem. Lembro-me que era o Grândola 300, uma prova em Grândola com 300km. Foi em 1992 que fiz essa primeira prova, já tinha eu os meus 27 anos. E a a partir daí nunca mais parei de fazer corridas até hoje. E foi sempre uma luta muito grande comigo própria para conseguir fazer mais, mais e mais. Porque de facto no princípio quando comecei a andar de mota com eles eu tinha muitos medos: tinha medo de subir, de descer, de curvar à direita, à esquerda… E depois fui fazendo muitas conquistas. Foi essa gestão dos medos, das minhas ansiedades e das minhas inseguranças que me fizeram levar o desporto de uma forma muito séria e fazer sempre mais e mais. E até hoje tenho estado sempre num processo de conquista que não acabou até agora.

 

Como começou o seu percurso nas competições?

Comecei a fazer provas do campeonato nacional. No início era só sobreviver e chegar ao fim. Depois comecei naquela brincadeira da Taça das Senhoras. Depois pensei: “Vamos lá ver se consigo resultados na Geral!”. Depois pensei em fazer uma prova em Espanha, e não dormi a pensar que não ia conseguir fazer. A primeira prova correu muito bem, tive um bom resultado e fiquei toda entusiasmada. A segunda prova tinha 630km. Ui, como é que ia conseguir fazer 630km? Aquilo foi uma coisa muito séria. Lembro-me de parar numa zona de assistência completamente exausta de cansaço e dizer ao Jorge que não aguentava mais. E ele dizia “Claro que te aguentas! Olha, o não sei quantos já desistiu, o outro está atrás de ti, o outro não passou…”. E eram todos fulanos que eu pensava que eram melhores que eu. E de repente pensei que se calhar não estava a fazer assim tão mal. Depois de comer, lá fui eu.

Elisabete Jacinto

 

Disse que era professora de Geografia. Em que ponto é que começou a pensar “Isto não é para mim”?

A partir daí foi a minha desgraça. O Dakar era considerado uma prova só para homens de barba rija: partiam 200 ou 300 rapazes e chegavam 20 ou 30 ao final. Eu achava que era a super mulher, que tinha uma enorme força de vontade, um espírito de sacrifício enorme, que era capaz de fazer o mesmo que eles. Convenci-me verdadeiramente disto e comecei a preparar o Dakar, uma obsessão abosluta: eu era capaz, eu ia fazer, eu queria fazer. Tive imensos contratempos, não consegui terminar o primeiro Dakar, desisti porque a mota teve vários problemas mecânicos. Consegui superar alguns, mas depois houve um que me deitou abaixo e tive mesmo de vir para casa. Mas como tinha sido a mota e não tinha sido eu, queria continuar a fazer. Tentei um segundo ano. Na etapa mais dificil, da Mauritânia, parti o motor e tive de desistir. E de repente as coisas começaram-se a tornar muito sérias. “Já tentei duas vezes, não consegui vez nenhuma. As duas vezes foram por causa da mota. Sei que sou capaz, mas se calhar tenho de me preparar melhor”.  Pedi uma licença sem vencimento na escola e comecei-me a dedicar a 100% ao desporto. E percebi que de facto se uma pessoa quer fazer uma coisa bem feita tem de se dedicar a ela. Os dias parece que cresceram e eu comecei a fazer e a pensar em muitas coisas para me preparar nas quais nunca tinha pensado. E isso para mim foi de facto importante. No terceiro Dakar – que eu já consegui terminar – ganhei a Taça das Senhoras e tudo, foi excelente! Mas na verdade foi só em 2003/2004 deixei mesmo de dar aulas.

 

E como é que esta sua vitória foi recebida?

Estavam imensos portugueses à beira das pirâmides (nesse ano o rally tinha acabado no Egito), e havia imensas pessoas que me davam os parabéns. Mas no final todas as pessoas sem excepção me davam aquelas palmadinhas nas costas e diziam-me “Mas tiveste sorte que o Dakar este ano teve menos quatro dias”. E eu dei comigo a pensar se eu seria capaz.  Lembro-me de chegar a casa e de o Jorge me dizer que se calhar estava na altura de deixarmos a competição. E eu disse: “Não, porque ninguém acredita que eu sou capaz de fazer o Dakar se o Dakar tiver os dias todos. Eu quero fazer, e quero provar a toda a gente que sou capaz”. A vida tem coisas muito estranhas, e coisas que às vezes nos fazem pensar. O que eu lhe disse a ele é que eu queria fazer um Dakar duro, difícil, provar a toda a gente que era capaz de fazer. E foi isso que eu tive. Realmente o próximo Dakar foi extremamente difícil, teve um percurso levado da breca. O meu carro de assistência pisou uma mina na fronteira de Marrocos para a Mauritânia. As pessoas foram todas evacuadas, eu fiquei sozinha e sem nada! Senti-me completamente perdida, sem saber o que é que havia de fazer, de pensar, e telefonei para Portugal. E a pessoa que falou comigo disse-me “Oh Elisabete, a última coisa que o Zé Ribeiro quer é que a Elisabete desista!”. Vou-lhe dizer que caí 300 mil vezes e 300 mil vezes me levantei. Parti três costelas, fiz uma lesão na virilha que para me montar na mota levantava a perna muito devagarinho (as pessoas olhavam para mim a ver quando é que caía), parti três ossos no metatarso, e tinha de pegar no braço para o pôr em cima do volante, que ele não ia lá sozinho. Mas no final eu tive a certeza absoluta que 90% dos rapazes que lá estavam não teriam acabado se se vissem nas minhas circunstâncias, e eu acabei. Portanto eu tinha conseguido aquilo que eu queria, um Dakar duro e difícil.

 

Isso foi tudo de mota, certo? Como é que acabou a ser piloto de camião?

Depois desse Dakar voltei a dar aulas, porque como não fiz nenhum resultado desportivo digno de aparecer nos jornais os patrocinadores cortaram-me a verba. Comecei a ponderar deixar a competição e lembro-me de um dia vir na rua e de tomar a decisão que tinha tanta dificuldade em tomar. Decidi: “Pronto, acabou. Vou deixar a competição, vou deixar as motas”. E no segundo seguinte dei por mim a pensar assim: “Espera aí, porque é que eu não faço camião? Camião é muito giro, nunca nenhuma mulher fez”. E de repente imaginei-me dentro do camião a saltar as dunas como eu via na televisão, e aquela imagem ganhou uma força tal… Tirei a carta de pesados nesse ano, fiz o exame em outubro e em janeiro estava a fazer o Dakar de camião. Portanto, nesse ano eu ainda estava a dar aulas. Esse Dakar foi extremamente difícil: como deve imaginar eu não sabia nada, a minha experiência era de mota. Vivi todas as histórias que se possam imaginar sobre as dificuldades que se podem ter num Dakar, desde virar o camião, a ficar para trás, a ter de fazer não sei quantos quilómetros sozinha fora de corrida para apanhar a comitiva do rally, a ter de ajudar o outro piloto da equipa que se tinha virado nas dunas… Mas no final eu dei comigo a pensar “Não, eu de camião posso ser muito mais competitiva do que era com a mota. Posso fazer os resultados que eu não fiz com a mota”. De repente consegui criar condições para fazer camião e então percebi que não conseguia acumular as duas atividades, porque o camião é muito mais exigente, puxa muito mais por nós, e eu precisava de tempo para me preparar, preparar o camião e tudo o mais. E foi aí que eu comecei naquela onda das licenças sem vencimento, nas dispensas de serviço, e a partir daí nunca mais retomei.

 

Já agora, até por curiosidade. Quais são os desafios específicos de um camião e as grandes diferenças face à mota?

A mota é um veículo extremamente físico, onde conduzimos com o corpo. A minha mota do Dakar pesava 200 quilos. E é um veículo muito solitário. É um veículo extremamente violento nesse sentido: temos de ser autónomos, temos de fazer tudo. Navegamos, conduzimos, se tivermos problemas de mecânica temos de resolver, estamos imensamente desprotegidos, expostos ao frio, ao calor, a tudo. Não temos comida, não temos água, e temos de sobreviver a isso tudo. Mas foi graças àqueles anos que fiz de mota que tive coragem e consegui fazer de camião. O camião é um veículo muito diferente, ele nasce para andar devagar, para carregar carga, e nós queremos levá-lo para corridas a andar depressa, a andar ligeiro. Portanto é um veículo que naturalmente não é concebido para aquilo que queremos fazer com ele. É muito grande, muito pesado, muito alto, muito largo, muito comprido, com uma caixa de velocidades super difícil, e nós queremos fazer com ele o que fazemos com as motas. Portanto eu vou sentada, posso comer quando quero, posso ligar a soflagem e aquecer a cabine se for caso disso, tenho montes de coisas na caixa de carga, tenho mais duas pessoas ao meu lado. Mas é difícil em termos psicológicos. É muito violento porque todos os problemas são à dimensão do camião. Todas as dificuldades são à dimensão do camião. Um piloto de camião tem que ser perfeito. Não pode ter dúvidas porque não pode errar. Se eu perante uma situação tiver dúvidas se o camião passa ou não passa, eu pura e simplesmente já não passo, porque eu não me sujeito a pôr o camião em más condições.

 

Como é que a Elisabete consegue continuar a pilotar camiões quando a maioria das mulheres acaba a desistir?

Eu se calhar dou mérito ao meu marido, que trabalha comigo. Se ele não estivesse ao meu lado eu já tinha deixado há muito tempo. É um trabalho de equipa. E se calhar também tenho de dar mérito aos meus patrocinadores, que têm estado ao meu lado estes anos todos, porque sem eles eu não fazia nada. Eu trabalho muito, é um facto. Dedico-me de corpo e alma, faço todos os sacrifícios que sejam necessários para continuar a correr, mas se me faltassem esses dois pilares eu caía logo para o lado e não tinha possiblidades por maior força de vontade que tivesse. É um desafio muito pessoal, é um facto. É uma luta que eu quero vencer, chegar ao topo da classificação geral. Era o meu sonho com a mota, fazer um brilharete nas corridas, mas nunca consegui. E é o que eu quero fazer com o camião. Dou tudo por tudo, mas tenho que reconhecer que eu tenho um apoio muito grande que se calhar as outras raparigas que apareceram não tiveram. Deixe-me contar uma história gira. Quando eu ganhei o rally de Marrocos houve um jornalista marroquino que foi fazer uma entrevista ao Jorge e não a mim. E perguntava-lhe “Você não acha que uma mulher ganhar a categoria dos camiões desvaloriza a modalidade?”. Isto traduz aquilo que as pessoas pensam quando eu tenho bons resultados. De facto é duro, é difícil, só homens fazem. Mas se há uma mulher que faz então não é assim tão difícil. Não é um “Ela é suficientemente boa para fazer como eles.” Ou é levada ao colo, ou não fez o caminho todo, ou alguém a levou, ou alguém conduziu por ela.

 

Há vários veículos num rally, não é? Tenho ideia que existem por exemplo mais mulheres nos carros, é verdade?

Sim, muitas como navegadoras, porque têm a capacidade de ficar concentradas muito tempo. Aparecem algumas como navegadoras, e como condutoras poucas. Há algumas, mas não muitas. Contam-se pelos dedos.

 

Mas porquê? Tem alguma ideia?

É assim: dizem – ou está escrito nos livros – que as mulheres têm uma menor capacidade de entendimento espacial do que os homens, e de facto a condução exige uma leitura de espaço muito grande. Esta poderá ser uma das razões. Outra razão é que as mulheres se defendem muito mais do que os homens dos perigos e dos acidentes. São menos arrojadas a situações periogsas. Por outro lado, e eu acho que de todas esta é a razão principal, tem a ver com a nossa educação. Somos educadas numa segregação enorme de atividades, de ideias, de pensamentos, de tudo. Somos habituadas a que uma coisa seja para os rapazes, outra para as raparigas, eu não posso fazer aquilo porque aquilo é dos meninos, os meninos é que fazem. E crescemos assim.

 

E mesmo que tenha conseguido quebrar esse estereótipo, se calhar há pessoas que ainda só a vêem como uma mulher num desporto de homens…

Vou-lhe contar. Porque é que eu consigo estar aqui hoje? Porque eu decidi fazer corridas de camião. E como não havia mulheres a conduzir camiões eu tive um sucesso enorme, apareci nos jornais todos. Se calhar apareci mais nos jornais por dizer que ia fazer uma corrida de camião do que quando ganhei uma geral. Mas apesar de todos os jornais terem posto a minha fotografia a dizer que tinha feito o Dakar de camião, ninguém, absolutamente ninguém acreditava que fosse eu a conduzir o camião. Nem os meus colegas de rally de mota acreditavam. Perguntavam todos assim: “Então e quem é que conduz o camião?”. Não era evidente que fosse eu a conduzir o camião. De forma que os primeiros rallies que eu fiz – e ainda hoje tenho essa tendência – eu agarrava-me ao volante e não largava nunca. Eu conduzi de dia e de noite. E não havia ninguém que visse o meu parceiro do lado a conduzir o camião por mim, porque eu já sabia que se houvesse alguém que dissesse “Eu vi o não sei quantos a conduzir” era o descrédito absoluto. E eu precisava muito dessa credibilidade para conseguir patrocínios e para conseguir continuar a correr. Por isso, cá está, é o preconceito e o estereótipo. “O camião é para homens”. Aquele preconceito que se tem muito enraizado na nossa cabeça, porque é assim que as nossas mães nos ensinam, e é assim que ainda hoje a gente ensina os nossos filhos. Não pensamos, não questionamos… Porque ninguém ensina ninguém a educar, não é? Nós fazemos como os nossos pais fizeram connosco, reproduzimos e não questionamos sequer. E há gestos que fazemos que são absolutamente discriminatórios na educação e nem paramos para refletir um bocadinho sobre isso.

 

Elisabete Jacinto

 

Acha que ajudou a quebrar estereótipos na escola, quando era professora?

Os miúdos adoravam a sua professora de Geografia porque ela chegava de mota, de capacete enfiado no braço. Isso era um facto. E as miúdas começaram a perceber que as raparigas também podem andar de mota. Lembro-me de uma situação muito constrangedora que eu tive uma vez com a mãe de uma aluna (que era minha colega na escola). Ela veio ter comigo e disse “Por favor Elisabete, faz o que puderes para tirar da cabeça da minha filha esta ideia maluca que ela tem de querer andar de mota. Porque eu não vou conseguir suportar ver a minha filha a andar de mota”. E eu senti-me muito mal nesse momento. Porque achava que era um bom exemplo, de prática do desporto, de associar o desporto ao estudo, ao trabalho, aquelas coisas todas. Continuei a fazer a minha vida tal e qual, mas de facto percebi que eu de certa forma era um modelo para as miúdas, ou pelo menos que as fazia questionar qualquer coisa.

 

Como é que se sente com o facto de ser a primeira mulher a pilotar camiões? É algo que a leva para a frente e a motiva?

Nós vamos buscar incentivos aqui e acolá. Eu não lhe contei muitas histórias que tenho para contar, mas no meu primeiro Dakar, eu tive de pedir dinheiro emprestado para participar porque não consegui patrocínios. Eu andei aí a bater à porta de todas as empresas do país. Consegui a mota, depois consegui um patrocínio para as inscrições mas precisava de dinheiro para as outras despesas todas. Fiz aqueles dias de Dakar com muitas dificuldades. Tive muitos problemas mecânicos. E desisti. E quando cheguei a casa, completamente deprimida e de rastos, comecei a ver o que é que tinha saído nos jornais sobre mim. E há um jornalista que tem a coragem de escrever uma coisa que me abanou completamente, foi como se eu levasse assim um bofetão na cara, daqueles bem fortes. Ele dizia-me assim “Já vi várias mulheres terminarem o Dakar, mas francamente, tinham corpo de homens. Não acredito que esta menina de aspeto frágil consiga sobreviver a mais de uma semana” ou de sete dias, ou algo desse género. Mas isto só para dar o exemplo de situações que nos põem para fora. Há muitas. Muitas. No nosso dia a dia estamos constantemente a enfrentá-las. Outro exemplo que lhe vou dar: nós vamos para as corridas e compramos imagens de televisão, e distribuímos as imagens pelas televisões. Se eu fizer um bom resultado, as televisões podem pôr uma imagem minha (para mim é bom, para os patrocinadores também, mas temos nós de a pagar). E havia um canal de televisão que falava do rally, falava de toda a gente, punham imagens de todas as pessoas e minhas nunca punham. E passou uma corrida, duas, três, quatro, e um dia a rapariga que me faz a assessoria de imprensa decidiu perguntar se havia algum problema com as imagens, porque nunca punham imagens minhas. E o jornalista dizia “A Anabela tem de perceber, a Elisabete está lá porque é senhora…”. E a Anabela dizia “Não, a Elisabete ganhou os camiões no rally de Marrocos”. “Ela ganhou mas foi as senhoras!”. “Não, a Elisabete não ganhou as senhoras, a Elisabete ganhou a geral dos camiões, ganhou a corrida na categoria camião.” “Mas oh Anabela, tem de compreender que como ela é mulher não faz sentido…”. Isto é só um exemplo, mas temos muitos, muitos. Com aquilo que eu já tenho feito, se eu não fosse mulher já tinha aí um destaque enorme.

 

Entrevista: Inês Fernandes | Fotos: Borbála Kristóf

 

Alexandra Oliveira: “A sexualidade continua a ser uma dimensão da nossa vida que é moralmente muito reprimida e balizada”

Alexandra OliveiraAlexandra desde muito cedo entendeu que se tivesse nascido rapaz as coisas seriam diferentes. Escolhe a rua para iniciarmos esta conversa, porque sente que este espaço de todos/as ainda é vedado às mulheres, pelas prescrições comportamentais a que este espaço as expõem. É também nas ruas, junto das pessoas e ouvindo as suas histórias, que foi encontrar a voz que quer dar ao seu trabalho enquanto investigadora.

 

O que te construiu na mulher e feminista que és?

Tenho de recuar à infância e aí a família é central. Para falar da minha construção enquanto pessoa e, neste caso, enquanto mulher tenho de começar por aí. Venho de uma família de classe média, com pais que se preocuparam em dar o melhor às filhas e ensinar-nos valores. Nasci numa família onde há carinho, amor e respeito. Depois no meu contacto com a escola, quando chego à adolescência, começo a ter consciência de algumas injustiças, nomeadamente discriminações de género. É aí que a minha consciência feminista começa a ganhar mais consistência. Eu acho que já nasci com ela mas é na adolescência que começo a ganhar mais consciência do significado de ser mulher e das injustiças, nomeadamente das diferenças de género e das desigualdades; porque é quando nós nos começamos a afastar do espaço de conforto, que é o espaço familiar, e começamos a tomar mais contacto com um mundo que nos desafia e que nos chama a atenção para algumas coisas. A questão da rua, por exemplo, enquanto espaço que é vedado às mulheres, foi algo que eu senti logo desde miúda. A certa altura, na adolescência, quando começamos a querer alargar o nosso espaço e a ganhar a nossa autonomia, começo a perceber que a rua era um espaço muito mais masculino do que feminino. Começo a ter consciência de todas as normas de género que nos são impostas e dos comportamentos apresentados como adequados ou não para uma mulher. Quando nós deixamos de ser apêndices dos nossos pais e começamos a querer conquistar o nosso espaço, entendemos que no mundo exterior à família também há regras, e que essas regras nos limitam e nos restringem os comportamentos. As questões relacionadas com a diferença de comportamento entre rapazes e raparigas foi algo que não me fez sentido. O que era apresentado como a forma de uma menina se comportar parecia-me muito castrador. E eu nasci em 1969, portanto, tive a minha adolescência nos anos 80, uma altura em que a sociedade era um bocadinho diferente da sociedade atual e que cerceava muito mais os comportamentos. Depois também nasci numa cidade pequena, num meio onde toda a gente se conhece e sentia muito a imposição dos valores morais conservadores. As questões da sexualidade foram muito fortes, a contracepção, o acesso aos meios anticonceptivos, o comportamento sexual feminino… Todas estas questões que nos limitam, embora atualmente com mais alguma liberdade, foram determinantes para que eu me construísse enquanto feminista. Não houve um marco específico, mas toda esta constelação de questões que tem que ver com o género feminino, com a mulher, com a liberdade e com os comportamentos que nos prescrevem como sendo os que devemos ter. E é nas questões da sexualidade que o comportamento feminino é mais controlado, é onde se sente mais. Outro exemplo da questão com a qual me fui confrontando: o facto de uma rapariga que não quisesse ter uma relação com um só rapaz ser imediatamente alvo de reprovação moral e rotulada como mal comportada. A minha indignação também tem a ver com isto: qualquer mulher que tenha um comportamento que não é de acordo com o que é esperado dela sexualmente, facilmente recebe a etiqueta de prostituta.  Esta questão do estigma de ‘puta’ é uma espécie de espada de Damocles que está por cima de qualquer mulher. Qualquer mulher que pise o risco, ou que pise um bocadinho ao lado, facilmente fica com esse rótulo. E eu fui tomando consciência dessas coisas e fui-me questionando. Não tinha lido nada sobre feminismo mas já tinha essa consciência de que até nas questões da aparência, da estética, de tudo o que uma mulher deve ser visualmente havia prescrições e regras que me prejudicavam. Depois comecei a ler algumas coisas sobre feminismos e comecei a situar-me. A faculdade foi igualmente importante. Estive bastante envolvida com as questões da legalização do aborto, há mais de 10 anos. Foi uma luta grande.

 

E como foi essa luta? 

Foi uma grande vitória e uma vitória mais do que necessária na altura. Nós tínhamos relatos de casos muito graves de mulheres que morriam até. De mulheres que eram perseguidas judicialmente por causa dos abortos clandestinos. E tínhamos as forças mais conservadoras da sociedade a tentar travar qualquer mudança legislativa, por razões morais. Temos aqui uma vitória dos movimentos feministas e dos movimentos sociais que se preocupam de facto com as mulheres – esses são realmente os movimentos pró-vida, aqueles que se preocupam com a vida das mulheres. E depois de uma grande batalha foi conseguido aquilo que eu acho que é justo. Até porque esta questão só acentuava ainda mais as desigualdades, quer dizer, se eu quisesse fazer um aborto e tivesse dinheiro, eu não ia fazer um aborto em más condições. Eu sabia onde estavam as clínicas e onde eu podia fazê-lo pagando e sem precisar de correr risco de vida. Ou seja, a desigualdade de género interseccionava com a desigualdade económica, o que sempre acontece nestas coisas. E é uma vitória que penso que não é reversível. Se bem que com o último governo PSD/CDS houve um retrocesso com a introdução de taxas moderadoras e com a obrigatoriedade de acompanhamento psicológico prévio à decisão da mulher.  Não passa pela cabeça de ninguém. As mulheres sabem decidir por elas e não precisam que as infantilizem.

 

Alexandra Oliveira

 

Neste momento em termos de feminismos onde achas que Portugal está?

Acho que os movimentos feministas continuam necessários. Há ainda a fazer um trabalho muito importante. Se pensarmos, por exemplo, nas questões da violência na intimidade, o que tem sido feito é muito mas ainda há muito por fazer porque as mulheres continuam a morrer vítimas dos seus companheiros conjugais, vítimas das pessoas de quem mais gostam. E isso mostra que ainda é preciso mudar muito na nossa sociedade. Houve alterações legislativas importantes. Há, neste momento, uma série de meios à disposição das mulheres como, por exemplo, as casas abrigo. Mas é necessária uma mudança de mentalidades e isso não se alcança de imediato. Acho que tem que ser feito um trabalho com as pessoas mais novas da sociedade, as crianças, através de formação sobre o que é a desigualdade de género, sobre o respeito pelo outro.

 

E o que achas que falta para passarmos este impasse?

Não acho que estejamos num impasse. Se as questões legislativas podem parecer as mais fáceis, na verdade às vezes não são fáceis. Até que a violência doméstica fosse crime público, por exemplo, houve que vencer muitas forças de resistência. Acho que devemos estar alertas, atentas e sempre a lutar porque as mulheres continuam a ser vítimas de grande desigualdade, a sofrer, a morrer, a ganhar menos, a ter menos acesso ao emprego, a ter mais entraves no acesso aos cargos de chefia… sabemos tudo isso, então é preciso uma luta constante pela igualdade.

 

Numa época em que parece falar-se muito de feminismo e de forma muito aberta, por outro lado também temos estas situações. Achas que estamos a ir no caminho certo?

Nós temos mais do que um feminismo e em algumas áreas específicas eu distingo diferenças muito grandes entre os diversos feminismos. Em termos globais, sim, estamos a ir no caminho certo. Quem diz o contrário é quem pretende defender o estado das coisas. Nas redes sociais as pessoas expressam-se abundantemente e, muitas vezes, sem freio e é frequente vermos posições fortemente anti-feministas, como aquele epíteto ‘feminazi’ que surge como uma forma de descredibilizar o trabalho feito pelas mulheres feministas e manter os privilégios masculinos. Quem toma essas posições pega nos feminismos como um todo e na sua parte mais anedótica e exagerada e posiciona-se contra. Há pessoas que dizem que são pela igualdade de direitos entre homens e mulheres mas que não são feministas porque há toda uma imagem criada da feminista como uma mulher radical que quer ser superior aos homens… Quase como se o feminismo fosse uma espécie de machismo ao contrário quando isso, no fundo, é ignorância das pessoas que não sabem o que é o feminismo. Não podemos deixar que o trabalho das feministas e dos feministas seja descredibilizado.

 

Atualmente como achas que a sociedade encara a sexualidade da mulher?

Continua a prescrever muito. A sexualidade da mulher é muito controlada, embora a do homem também. E quando digo prescrever é dizer exatamente como se deve comportar um homem e como se deve comportar uma mulher. Não estaremos como há 40 ou 50 anos, mas, a sexualidade feminina, ainda continua a ser muito vigiada e a ser rotulada negativamente quando não se enquadra no comportamento sexual que é considerado apropriado para uma mulher. Mesmo nos meus alunos da faculdade que têm 18, 19, 20 anos, ainda vejo muito esses julgamentos diferenciados sobre o que deve ser um comportamento de uma rapariga e de um rapaz. A forma como educamos as nossas crianças contribui para isso, desde pequeninos lhes são incutidas diferenças de género. Mas o comportamento sexual masculino também é submetido a controlo, o comportamento sexual masculino também é pensado de uma determinada forma, não há, no que respeita aos homens, espaço para a feminilidade ou para a passividade… Quando acontece são imediatamente rotulados de gays e rejeitados… A sexualidade continua a ser uma dimensão da nossa vida que é moralmente muito reprimida e muito balizada. Temos o exemplo da transgeneridade, em que se tem feito um bom caminho, mas, depois, no dia-a-dia, as pessoas são maltratadas na rua, são perseguidas, são vítimas de bullying homofóbico… Continua a haver miúdos que se suicidam porque não aguentam a pressão na escola. A sexualidade ainda é, assim, um grande reduto das forças mais conservadoras.

 

Enquanto mulher o que achas que vem a seguir para os/as jovens? Qual seria o caminho que te parece haver a fazer?

Acho que os jovens, considerados ainda em desenvolvimento, devem ser consciencializados paras as diferenças de género, para as discriminações e para necessidade de lutar contra elas. Isto é imprescindível. Para  lutar contra as desigualdades é preciso ter consciência delas, por isso é necessário dar conhecimento das discriminações de género, do sexismo e até da misoginia. É preciso mostrar exemplos específicos: as desigualdades salariais, a violência no namoro… É preciso que tenham consciência dos micromachismos. Há discriminações que as pessoas não vêem como tal. Nós continuamos a ter órgãos de comunicação social neste país a terem painéis exclusivamente de homens a comentar assuntos que dizem respeito a homens e a mulheres. É preciso tomar consciência destes casos, nestas áreas todas, para querer lutar por uma sociedade mais justa e livre.

 

Alexandra Oliveira

 

Quais os sonhos ou lutas que ainda estás à espera de agarrar?

O sonho de uma sociedade mais justa e livre implica uma luta à qual não podemos renunciar. Por muitos avanços que tenham ocorrido, a luta das mulheres e homens feministas pela justiça e pela igualdade é algo do qual não podemos desistir. Eu espero que haja lutas que vão deixar de fazer sentido porque as desigualdades a que respeitam foram resolvidas. Por exemplo, eu espero que, um dia destes, já não haja necessidade de, em termos da linguagem, ter que continuar a explicar que o masculino é um falso neutro. Hoje já não precisamos de lutar pelo direito de voto das mulheres, pelo menos em Portugal, mas há muitas outras desigualdades e discriminações que é preciso combater. As opressões são muitas e, embora atualmente a igualdade entre mulheres e homens esteja consagrada na lei, é preciso estar atenta aos grupos de mulheres que são mais oprimidos, às mulheres que continuam tomadas pela submissão e subalternidade. Serve isto para dizer que a luta do feminismo é uma luta da qual ainda não podemos abrir mão por muitos avanços que tenham ocorrido. Esta é uma luta que agarrei e que vai continuar a ser minha.

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

Joana Sales e Teresa Sales: “Faz muita falta que as mulheres se unam para lutar contra as discriminações”

Teresa e Joana Sales são mãe e filha e juntas lutam ativamente pela Igualdade de Género. Foi apenas o início quando Joana, aos 12 anos, passou a utilizar só o apelido da mãe. Teresa juntou-se à luta e hoje partilham mais do que ideias: ativismo feminista, principalmente através da UMAR.

 

 

Quando é que se aperceberam que eram feministas?

Teresa: Desde sempre que fui feminista. A minha mãe sempre me ensinou que as raparigas têm que estudar e trabalhar para nunca dependerem de um homem. Eu lembro-me que tinha uma empregada doméstica que chegava lá a casa batida. E sempre me insurgi. A verdade é que ir à polícia não dava em nada.

Em minha casa o meu pai fazia a comida, partilhava as tarefas com a minha mãe, que não era normal nos anos 50. Apercebia-me que havia uma discrepância entre o que se passava em minha casa e na dos outros.

Joana: Acho que me comecei a sentir como feminista através do assédio sexual de rua, já desde pequena. Foi aquilo que me fez sentir a opressão machista. É aí que começo a sentir a invasão, o que é o poder masculino sobre nós.

 

Faz 10 anos que o aborto deixou de ser penalizado. Como é que viveram essa vitória?

Teresa: Tanto uma como outra estivemos bem metidas no movimento pelo Sim. No dia 11 [de 2007], quando terminou estava toda chorosa! Foram tantos anos, isto foi uma luta brutal!

Joana: Entre o referendo de ’98 e o de 2007, houve muitas tentativas e estive sempre ativa nesses anos. Houve julgamentos de mulheres por abortos em que cheguei a estar em frente ao tribunal. Foi uma luta mesmo muito grande.

 

O que é que acham que falta ao feminismo em Portugal?

Teresa: Atualmente as mulheres quase todas dizem que são feministas, começa a tornar-se “moda”. Faz muita falta é o ativismo feminista, que as mulheres se unam para lutar contra as discriminações.

Joana: O feminismo está muito mais “desestigmatizado”, e isso é bom. Cada vez mais estrelas da cultura pop dizem ser feministas e têm essa influência. Apesar disso, as outras pessoas do movimento geral ainda não se incluem muito. Acho que as pessoas não veem isto como um assunto também político e como um direito humano fundamental.

 

Teresa e Joana Sales

Entrevista: Margarida Henrique | Fotos: Pedro Pinto Basto