Leonor Teles: “Cabe ao cinema de autor tentar representar outras perspetivas que não sejam só os clichés a que estamos habituados”

Leonor Teles, realizadora de cinema

Leonor TelesLeonor Teles é uma amante da fotografia. Em 2016 ganhou um Urso de Berlim pela curta-metragem “Balada de um Batráquio”, filme que denuncia a xenofobia contra a comunidade cigana em Portugal.

 

 

Quando decidiste que querias ser realizadora?

Não foi bem uma decisão, nunca tive o sonho de ser realizadora ou cineasta. O meu sonho era ser piloto da força aérea. Mas quando cheguei ao secundário, comecei a perceber que não era a carreira militar que eu queria seguir. Nessa altura já tinha o interesse muito presente da fotografia e procurei cursos que tivessem essa vertente, para não me estar só a restringir à fotografia. Com o curso de cinema, podia tirar imagem e outras áreas. Foi mesmo uma paixão pela fotografia.

 

E dentro do mundo do cinema gostarias de dedicar-te a alguma outra área além da realização?

Direção de fotografia e fotografia para cinema. É o que eu mais gosto fazer. Realizar é uma coisa que eu faço mais pontualmente e só quando tenho a certeza dos projetos que quero fazer. A fotografia, é o meu trabalho digamos comum, aquilo que eu mais gosto de fazer, é onde eu me sinto mais à vontade e o que tenho feito mais.

 

Sentiste alguma dificuldade pela tua condição de mulher?

Nunca senti discriminação por ser mulher e trabalhar em cinema, senti uma outra dificuldade, que eu acho inerente a todas as áreas, por ser jovem. Para os jovens no geral, é muito complicado. É um meio muito pequeno, muito fechado, há poucas oportunidades e não há espaço para falhar. Mas isso tem que se contrariar aproveitando as poucas oportunidades que existem.

 

 

As mulheres estão bem representadas no cinema?

Acho que estão bem representadas em termos profissionais. O que não falta hoje em dia são realizadoras mulheres que estão a singrar por todo o mundo: Salomé Lamas, Claúdia Varejão, Filipa Reis, Leonor Noivo, Luísa Homem. São realizadoras mulheres e jovens. Atrás da câmara estão bem representadas e acho que é ótimo. Mas tem mesmo a ver com o facto do trabalho que estão a fazer ser mesmo relevante.

 

O cinema ainda representa muitos esterótipos machistas?

Claro, e vai continuar a representar. Pelo menos o cinema que é mais consumido, o comercial. Cabe também, se calhar, ao cinema de autor, que é o que se faz mais em Portugal, tentar contrariar essa onda e apresentar outras vertentes, outras perspetivas que não sejam só os clichés a que estamos habituados.

 

O cinema de autor ou social devia ser mais ativista, como na Balada de um Batráquio?

O Balada nasceu um bocado de um sentimento de frustração. De achar que o cinema só estava a representar realidades e não propriamente a fazer algo relativamente aos problemas que estava a ilustrar. E esse sentimento fez com que eu passasse à ação no próprio filme. Mas foi um bocado específico. Acho que nem todos os filmes têm esse poder de intervenção. Mesmo no Balada, o poder de intervenção é muito reduzido. Reduz-se só ao filme e ao tempo que as pessoas dispendem para ver o filme. Acho que o poder do cinema está em, durante o tempo que as pessoas dedicam ao filme, pô-las a pensar sobre aquilo. Se aquilo for realmente bem feito, eu acredito mesmo que as pessoas depois vão para casa e vão pensar naquilo. E isso por si só já é uma intervenção. Porque se pusermos as pessoas a pensar sobre determinados assuntos, pode ser que, pouco a pouco, depois também tentem alargar isso as coisas do seu dia a dia. Mas achar que o cinema tem esse poder de mudar ou de intervir é um bocado ingénuo. Acho que o poder está mesmo na duração do filme e no tempo em que o espetador está ali na sala para ver o filme. Aí é que o cineasta tem o poder porque está a mostrar aquilo que quer dizer e as pessoas foram generosas suficientes para ir ver o filme e estarem ali durante aquele tempo.

 

O que mais gostas e o que menos gostas de fazer no teu trabalho?

O que mais gosto é fazer as fotografias dos filmes e o que menos é que, no fim, quando temos que distribuir e vender o filme e tentar chegar a uma estreia, acava por, às vezes, o mais importante não serem os filmes, mas sim outros valores e outras coisas que passam à frente. Às vezes é mais importante o nome ou os contactos, do que propriamente o filme, o trabalho. E isso é muito injusto para os filmes.

 

 

Achas que depois de ganhar o Urso de Ouro em Berlim, tens mais oportunidades de trabalhar no cinema?

Acho que sim mas também não me quero valer disso para mostrar o meu trabalho. Quero mesmo que o mais importante seja o trabalho. Que valorizem mesmo aquilo que estou a fazer e que se aquilo que eu estiver a fazer for um porcaria que me digam. Não sou a maior por causa do Urso de Ouro. Sou um ser criativo como as outras pessoas todas mas também vou falhar. E o problema do cinema é que há muito pouco espaço para falhar. E às vezes, se calhar, é preciso nós fazermos dois ou três filmes só para nós e não mostrar a ninguém. Ou seja, só como método de aprendizagem para, a seguir, fazer uma coisa realmente boa e realmente melhor. Eu espero que os filmes, que aquilo em que eu trabalho, valha por si e não propriamente por ser meu.

 

O teu percurso no cinema pode ajudar outras mulheres?

Talvez, espero que sim. Por exemplo, a área de imagem e fotografia é uma área masculina, mais fechada às mulheres. Mas acho que a minha geração já começa um bocado a contrariar isso. As mulheres também sabem fazer imagem, também aprenderam, também têm força. As mulheres não são só assistentes de imagem, que é um clássico no cinema. Era o que mais faltava alguém dizer que não podes fazer câmara porque és mulher e não tens força. Ou que agora que estás bem na realização, deixa lá a fotografia para quem saiba. Não vou aceitar que ninguém me diga isso. Se é o que eu gosto e quero fazer, vou lutar por isso.

 

Tens visto algum filme português com uma perspetiva mais feminista?

Por acaso há um filme que eu vi da Claúdia Varejão, Ama-San, muito interessante. Aquilo passa-se numa ilha no Japão e é sobre mulheres pescadoras em apneia. De facto, aquilo é uma profissão extremamente difícil e que normalmente as pessoas associariam a uma coisa até masculina. Mas aquilo é absolutamente feminino e as mulheres é que mandam e são elas que têm o sustento da família. E isso é uma inversão de papeis bastante forte. Mas eu também não sou muito de ligar essa parte mais feminista ou menos feminista, não penso muito nisso. Acho que é importante mas que, às vezes, quando se torna excessivo, já nos estamos a tornar um bocado iguais a todas essas doutrinas machistas.

 

Achas que esse filme pode ser considerado feminista pela sua representação da força e do poder das mulheres?

Sim, mas ali as mulheres fazem uma coisa que nem os homens fazem. Ou seja, ali é que está mesmo o poder das mulheres. Elas conseguem fazer isto, eles não. Elas já fazem isto há anos, é uma tradição que tem passado de mulher para mulher. Na verdade, do pouco que eu fui trabalhando, mesmo com as personagens masculinas, fui sempre descobrindo algumas personagens femininas igualmente fortes ou até mais fortes do que as personagens masculinas. E acho que isso é uma caraterística das mulheres. Elas são mais fortes que os homens, porque aguentam tudo, aguentam estar nos bastidores, aguentam os filhos, aguentam a casa, aguentam tudo. E isso sim é uma grande força, mais do que uma força física, elas têm uma força emocional que os homens não têm.

 

 

Como é que foi filmar o Rhoma Acans com a comunidade cigana?

Esse é que é um filme um bocado feminista, só mulheres. Acho que foi um processo tão difícil como filmar outra pessoa. Quando vamos filmar pessoas, vamos tentar entrar na intimidade delas, é sempre um processo de ser merecedor da confiança das pessoas, para entrarmos com as câmaras. Acho que parte todo de um ato de honestidade e genuinidade, de explicar o que é que se está lá a fazer. Ou seja, há todo um trabalho de preparação antes de se entrar com as câmaras, antes de se invadir o espaço. E no fundo, isso também parte do interesse genuíno que eu tenho com as pessoas que quero filmar. E claro que só assim é que eu consigo protegê-los e fazer com que sintam confiança em mim para me darem esse ato generoso de os deixar filmar.

 

Achas que os teus filmes contribuiram a mudar um bocado a visão que a sociedade tem da comunidade cigana?

Não sei. Houve um feedback sempre bom mas não sei efetivamente o impacto que os meus filmes tiveram. A única coisa que eu posso dizer é que se as pessoas dedicarem aqueles 10 ou 14 minutos ao filme, já ganhei. Porque o meu trabalho é esse. Obviamente eu no meu íntimo, gostava que as pessoas fossem para casa a pensar naquilo e que mudassem um bocadinho a sua vissão. Mas isso não acontece assim, mudar mentalidades é um processo muito mais prolongado. Eu não quero fazer filmes só para mim. Claro que os filmes começam primeiro com um ato egoísta, começam para mim. Mas depois tem que chegar uma altura em que os filmes tornam-se autónomos, seguem a sua vida e vivem para o espetador. São filmes quando chegam ao cinema e são vistos. E claro que sim, eu quero que toda a gente vai ver, senão não faz sentido.

 

Qual é a história que sempre quiseste contar mais ainda não conseguiste?

Não sei, até agora as histórias que quis contar, contei. Mas por exemplo, gostava muito de poder filmar no Oriente, na Ásia, em Macau e em Hong Kong. Mas não sei ainda que história é que posso filmar nesses sítios…Se algum dia tiver oportunidade, gostaria de lá filmar. Agora tenho que descobrir o que.

 

 

Entrevista: Marta López | Fotos: Rebeka Dávid

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