Marta Pereira da Costa: “Temos de tirar o medo e ir para a frente”

Marta Pereira da Costa, guitarrista

Marta Pereira da Costa, guitarristaGuitarrista de guitarra portuguesa, Marta lançou o seu primeiro álbum o ano passado, contendo vários estilos musicais e com a participação de músicos reconhecidos em Portugal e internacionalmente.

 

 

Quando começaste a aprender a tocar a guitarra portuguesa?

Deixa-me fazer as contas… toco há 18 anos. Então já sou uma maior de idade na guitarra! Os primeiros tempos são muito complicados. Não consegues ver muitos resultados, não tiras um som muito bom, e não consegues ter rapidez. Depois quando passas ali uma barreira, já começas a divertir-te mais, a ter mais gozo a tocar.

 

Como foi aprender a tocar num território de homens?

Quando comecei a aprender e via os homens a tocar a guitarra, queria ser como eles. Nos primeiros tempos tive muitas lesões e tendinites, porque eu tocava sem parar, muito esforçada para a minha idade. Queria ganhar força nos dedos, queria tocar tão rápido como eles. Depois aos poucos percebi que, embora não achasse que seja impossível tocar como eles, a minha abordagem da guitarra era diferente. E então deixei de me comparar e tentei procurar um caminho para mim.

 

Como é esse caminho? O teu primeiro disco é uma fusão entre vários géneros, tem várias músicas fora do mundo do fado.

A guitarra portuguesa tem um som incrível: um som íntimo com uma cor muito forte. Qualquer estrangeiro quando vem cá, ou mesmo quando temos concertos fora, se emociona com o som da guitarra. Por isso quis fazer um CD onde a guitarra fosse a voz, e quis ligar essa voz com vários géneros musicais. Também com o fado – porque o fado nunca vai estar separado da guitarra – e temas tradicionais, mas também quis pôr a guitarra a ir por outras modalidades. Gravei um tema de jazz com o Mário Laginha e fiz parcerias com músicos estrangeiros. Uma  das parcerias foi com a Tara Tiba, uma cantora iraniana com uma vocação incrível, que agora reside na Austrália por ser proibida de cantar no seu país por ser mulher. O canto dela é muito importante: é muito diferente do nosso e ao mesmo tempo muito intenso.

 

Gravou uma canção com o Richard Bona, um dos músicos mais reconhecidos do jazz. Como se encontraram?

Ele é um autor incrível, um cantor, músico, um dos melhores baixistas do mundo. Conheci-o num workshop em Lisboa, no fim do qual fui falar com ele. Apresentei-me e no meio da conversa eu disse: “Olha, eu vou gravar um disco e adorava gravar um tema contigo. Desculpa a minha ousadia, mas gostava mesmo muito, porque gosto muito do teu trabalho”. E ele: “How good are you?” E eu: “Man, I’m the best!” Ele sorriu, trocámos e-mails e enviei-lhe algumas das minhas músicas. Ele gostou do meu trabalho e escolheu um tema escrito pelo Rogério Charraz, um amigo meu. Combinámos e gravámos o som em Lisboa e depois o vídeo em Paris.

 

“I am the best!” É uma resposta cheia de confiança.

Sim, estava louca. Não sei o que me aconteceu!

 

Marta Pereira da Costa, guitarrista

 

Não costumas ter essa confiança em relação ao teu trabalho?

Sou tímida, não consigo falar para mais do que duas ou três pessoas, mas quando toco a guitarra consigo tocar para três mil pessoas se for preciso. Tenho muitos complexos, como se calhar qualquer pessoa tem, mas aceito-me como sou. Quando a guitarra me fez um clique eu fui atrás com toda a força. Acho que é uma força que vem um bocado de dentro: não tinha experiência nisso, não sabia como ia ser, é muito arriscado, me tirou muitas noites de sono, mas ao menos tinha tanta vontade de fazer, e é uma coisa que faço com tanto gosto, que eu não tive dúvidas em arriscar. Ainda hoje não me arrependo de nada. Estou muito mais cansada, durmo menos, mas agora trabalho para mim, todos os dias a toda hora. Eu adoro tocar, partilhar com as pessoas… Não sei descrever, mas é uma sensação incrível. É muito gratificante.

 

Quando começaste a pensar que podias viver da música?

Eu acho que passei essa barreira em 2012, quando gravei o primeiro disco, que foi o disco do meu marido da altura. Eu não sabia tocar sozinha, antes tinha feito já vários concertos, mas tocava sempre ao lado do meu professor, o Mário Pacheco. Só depois de ter gravado o disco é que conseguia imaginar que era possível. O álbum tem sido um passo importante, por que tive que gravar, tive que estudar todas as fases, tive que criar versões minhas, tive que pensar em introduções e começar a tocar sozinha.

 

Nessa altura trabalhavas como engenheira. Foi a gravação do disco que te encorajou a trocar a engenharia pela música?

Sim, foi neste período que decidi deixar a engenharia. Voltei a estudar música, comecei a ter muitas aulas de guitarra porque queria aproveitar o tempo todo para estudar. Comecei a tocar nas casas de fado, começámos a preparar a produção do meu CD, fazer concertos… isto foi em 2012, já quase cinco anos atrás.

 

Já estiveste em vários territórios dominados por homens. Estudaste engenharia, jogavas futebol e agora tocas a guitarra portuguesa. Nunca te sentiste mal-vinda?

Na engenharia já era muito comum estar lá mulheres também, mas na área da guitarra portuguesa só somos duas mulheres, a Luísa Amaro e eu. E ainda tenho medo que eles, homens, não me aceitem. Acho que em geral tenho sido muito bem aceite, mas constantemente com o medo de não ser bem assim. Por isso estou tão dedicada para fazer as coisas bem, que eles valorizarem o meu trabalho e o meu esforço. Quando comecei a tocar a guitarra nem pensei. Só queria aprender, comecei a aparecer nas casas de fado com o meu pai, com a guitarra nas costas, e eles achavam piada. No princípio eu ouvia e imitava logo qualquer coisa, até me chamavam copy-paste no Clube do Fado. Mas eu ainda naquela altura não pensei. Foi mesmo uma brincadeira.

 

Marta Pereira da Costa, guitarrista

 

Como veio este outro caminho de improvisação, de experimentar com o jazz e o world music?

Isto tem sido um caminho natural. Por exemplo eu morro do medo de usar a palavra jazz. Desde criança toda a minha formação era clássica: por exemplo toco bem o piano, mas não sou capaz de improvisar como fazem os músicos de jazz. No princípio com a guitarra também não conseguia.

 

Como conseguiste desconstruir estes padrões da formação clássica?

Temos de tirar o medo e ir para a frente, e tocar mesmo que saia mal. Temos de perceber que não vai ser assim tão mau. Este processo ainda está a acontecer: ainda tenho medo, mas já chego mais à frente.

 

Tens algum sonho em relação à carreira ou à vida?

Gostava de crescer como músico, fazer concertos nas salas mais importantes e ver o nosso país, os portugueses orgulhosos a nossa tradição. Já fui muitas vezes para fora e sempre quando vou tocar numa sala estrangeira, me emociona muito. Sinto sempre a responsabilidade de levar a nossa cultura para o estrangeiro. Sou patriótica, gostava de conquistar um público estrangeiro, mais e mais alargado, para cultura portuguesa.

 

 

Entrevista e fotos: Borbála Kristóf

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