Teresa Guerra: “Para uma mulher subir na carreira tem de fazer e saber o triplo sem lhe permitirem metade das asneiras”

Teresa Guerra, ginecologista

Teresa GuerraNasce a 22 de Março de 1929 no Porto mas sente-se transmontana pela infância feliz que passou em Moncorvo. Nunca se casou nem teve filhos, por opção, mas ajudou a trazer centenas de crianças ao mundo. Diz que o casamento é algo muito exigente e, por isso, nunca teve paciência para ter um companheiro. Ao aproximar-se de fazer 88 anos diz quer estar próxima das pessoas de quem gosta e conviver.

 

 

Como foi ser jovem na época da sua juventude?

O caminho foi um bocadinho difícil, particularmente nos caso das mulheres, que tiveram de lutar para ter o espaço que não nos era dado. A época em que eu nasci não foi má porque tínhamos muito para conquistar e nós mulheres fomos fazendo-o aos bocados. Agora a verdade é que já tinha havido muitas outras mulheres que tinham lutado mas sem conseguir o que queriam. A minha vida toda passou-se na conquista de um lugar que nos era negado. E não falamos aqui de concorrência, falamos de espaço que era nosso por direito, pelo nosso trabalho. A propósito disso tive um episódio engraçado: eu era muito nova, formei-me com 23 anos, e nesses primeiros anos lembro-me de estar a assistir a um parto onde a coisa se complicou e tive de dar indicação para cesariana. Na altura estava na Lapa e tínhamos de avisar uma irmã quando fosse necessário esse tipo de procedimentos, para que se preparasse a sala de operação. E quando lhe comuniquei, o que ela me perguntou de imediato foi quem viria operar. E eu respondi: Olhe se não se importa vou ser eu, quem vai anestesiar é também uma Sra. Doutora, quem vai ajudar é outra e a parteira, também mulher. E depois ela lá deixou e eu disse: Vou-lhe fazer uma pergunta, se com esta idade que tenho fosse um homem, a irmã tinha feito essa pergunta? E ela respondeu que não.

Ou seja se eu fosse um homem e fosse lá dizer que era uma cesariana ela não perguntava quem ia operar, agora eu, por ser mulher, ela achava que vinha alguém, que não eu, tirar o menino. Isto em 1960 e pouco.

 

Para si quais foram as maiores conquistas das mulheres?

Para mim, para conquistar espaço muito da independência económica. E uma coisa muito importante foi realmente a mulher conseguir entrar no mercado de trabalho e conseguir subsistir e, portanto, serem aceites e concorrermos no mercado de trabalho foi uma conquista. É verdade que ainda não foi de todo, até porque ainda precisamos das quotas, que à primeira vista são um bocadinho…chocantes. Mas também se não for assim, não avançamos. Tem de haver quotas para que, depois do espaço aberto, consigamos nós conquistar as coisas. Se assim não for, os homem tomam conta de tudo e nós perdemos a batalha. Eu tive problemas muito sérios porque fui chefe de serviço e de início não o era para ser porque queriam que fosse um colega que estava atrás de mim. Para uma mulher subir na carreira tínhamos de fazer e saber o triplo sem nos permitirem metade das asneiras.

 

E como chegou à área da genecologia e obstetrícia?

Primeiro tenho que dizer porque quis ser médica. Quando eu tinha uns 10 ou 11 anos tive um mote de escrita: Se tivesse o futuro nas mãos o que queria ser? Ao que eu respondi que seria médica. Isto porque o meu pai era médico, o meu avó era médico, o meu tio avó era médico… Havia muitos médicos na família. Então eu achava que as pessoas que me rodeavam como médicos, tinham prestígio. E eu queria ser importante.

Por outro lado o meu pai fazia questão que tirássemos um curso. Nós vivíamos numa aldeia muito pequena, e nesses sítios quando se é qualquer coisa é-se rico. Então o meu pai dizia: Vocês não são ricos porque se eu levasse a família toda a comer ao Maxime, em Paris, gastávamos o dinheiro todo, portanto, vocês têm de estudar. E dizia isto porque numa aldeia pequena com um pai médico, naquela altura, e uma avó senhora da aldeia, se não fossemos contrariados podia-nos cair no engano de não querermos fazer nada. Nós éramos 5 e o meu pai sempre insistiu com as raparigas na ideia de que tínhamos de conquistar o nosso lugar e ter independência económica e que o caminho para isso era tirar um curso. E eu em criança, com esta ideia que o meu pai nos estava sempre a meter na cabeça, decidi que ia ser médica como o meu pai e o meu avó, porque eles eram pessoas muito importantes e eu queria ser como eles.

Depois para obstetrícia fui por um motivo engraçado. Eu ia passar as férias para a aldeia e nas férias de 1952, quando me formei, estava lá e de manhãzinha chamaram-me para ir ver uma rapariga grávida que se estava a sentir muito mal. E eu até tinha feito obstetrícia com 16 mas na verdade não sabia nada de obstetrícia, sabia o que estava nos livros mas a prática não havia naquela altura. Lá fui eu e deparei-me com um edema generalizado e a rapariga a dizer que já não sentia o bebé a mexer. Eu não tinha nada comigo para ver, comecei a apalpar e até usei um estetoscópio do meu pai para tentar ouvir o bebé e percebi que bebé estaria morto. Lá lhe indiquei umas coisas para ela passar na à farmácia e baixar as tensões e passado um tempo lá se confirmou que o menino nasceu morto. Depois disto, eu tinha feito a observação bem e a situação em termos do meu trabalho tinha corrido bem mas pensei que para ir para lá passar férias tinha de saber mais de obstetrícia, e fui à maternidade Júlio Diniz inscrever-me como voluntária para estágio. Comecei assim na área, até que abriu concurso para interna, concorri e fiquei. Entretanto também fui a Lisboa tirar anestesia porque os internos tinham de anestesiar e até sem grande formação, e eu quis tirar para saber. Não fiquei por ai porque queria contacto com as pessoas e anestesia põe-nas a dormir. Trouxe centenas de crianças ao mundo.

 

Teresa Guerra, ginecologista

 

A Teresa nunca se casou nem teve filhos… Como é que essa questão foi encarada?

Se eu fosse filha única talvez ponderasse, mas tive os meus irmãos que asseguraram a descendência. Eu realmente tenho muita pena das mulheres que têm muito jeito par ser mãe e não conseguem. Lamento sinceramente. Mas ainda hoje com esta idade não estou nada arrependida de ter ficado solteira como fiquei. É uma opção que eu tomei. E a família aceitou muito bem, o meu pai não se importou nada. Aliás, para o meu pai, como para a maioria dos pais, ninguém merecia as filhas nem os filhos. Ele dizia uma coisa que é de realçar: “ Vocês podem fazer um casamento contra a minha vontade mas o contrário não se verifica”. Nunca se sobrepôs à vontade dos filhos. Mas eu nunca tive tendência nenhuma para o casamento e, acima de tudo, para aturar homens. Acho que é muito difícil. É preciso abdicar de muita coisa e ter uma capacidade de compreensão muito grande. Para mim as mulheres têm sempre razão, e depois vê-se. À cabeça têm sempre razão. É claro que as vezes não têm evidentemente. Dava-me sempre bem com os colegas e com os maridos das colegas mas para mim era difícil, tinha de abdicar de muita coisa.

 

Trabalhou muitos anos na saúde sexual e reprodutiva. A pílula foi uma viragem na sexualidade?

Foi. Eu tive outra sorte de ser convidada para ser médica no centro universitário. E lidei com o que a mulher conquistou a nível sexual. Eu sou católica mas nunca tomei posição contra a pílula. As pessoas têm o direito de escolher. Não vamos agora dizer que é pecado! E nem comento o que vi as minhas colegas tomaram pavor por causa da pílula e por serem católicas. Eu tive uma paciente que foi falar com o padre para saber se tomava a pílula, e esse padre era dos que está dentro da realidade, porque lhe disse que não se metia e para fazer o que a médica pensasse ser o melhor. Eles não se têm de meter nisso. Naquela altura as mulheres mais antigas reagiram mal em relação às filhas. Mas eu nunca tive nenhuma conversa com mães sobre os assuntos das filhas. Mas também é verdade que dizia às raparigas que para fazerem o que quisessem tinham de ter independência e que a independência económica era fundamental. Também nunca lhes dizia para dizerem às mães, cabia a elas gerir as suas vidas. Eu acho que isso foi uma conquista que eu tive a felicidade de ver e onde fui também parte ativa porque me foi possível ajudar algumas mulheres a conquistar o seu espaço, nas questões da sexualidade.

 

E em relação ao aborto?

Eu nunca fiz nenhum aborto. Assisti a situações muito graves, vi morrer muitas jovens, mesmo muitas, com infeções pós-aborto. E isto acontecia precisamente porque o aborto não era legalizado elas metiam-se com pessoas incompetentes. As curiosas que muitas vezes se metiam a fazer abortos não tinham competência para isso e, o resultado era as mulheres irem parar aos hospitais com infeções pós-aborto. Na maior parte das vezes, quando uma mulher entrava assim, perdia-se uma vida. Isso foi muito chocante para mim. Mesmo uma mulher morrer por circunstâncias de gestação achei sempre chocante, dar uma vida não é atirar a nossa. Por isso, nunca permiti uma mulher quando vinha ao meu consultório com um problema saísse com dois, algumas tiveram de sair com o problema por resolver, mas nunca agi como uma curiosa. Tive o caso de uma paciente que até disse que eu, ao não lhe fazer o aborto ia por a sua vida em risco porque ela ia a uma pessoa que não era de tanta confiança e eu ia ser responsável. Ora, eu disse-lhe que não podia ser, que eu também tinha de ser respeitada nas minhas opções e pensamentos. Eu não criticava mas também tinha direito à minha posição. Apesar disso, também é verdade que orientei algumas pessoas, não muitas, para fora do país para fazerem o aborto, não clandestinamente.

 

Teresa Guerra, ginecologista

 

Tem alguma criança que tenha nascido e que a marcou? Alguma história que lhe ficou na memória?

Bem, os meus sobrinhos marcaram-me um bocado. Talvez considere que o parto da  da minha irmã mais nova, que teve só um filho e aos 40 anos, me marcou especialmente. Isto, porque eu não ia fazer o parto, apesar de ter seguido a gestação. Disse que se fosse necessária a cesariana seria a Dra. Alexandrina a fazer. Mas as circunstâncias assim não o quiseram. A minha irmã entrou em trabalho de parto e, como na altura não havia telemóveis, não se conseguiu entrar em contacto com a Dra. Alexandrina. A cesariana era premente fazer-se naquela altura, então eu chamei uma colega para me ajudar e fomos para a sala de partos. Esse marcou-me porque não era para ser eu a faze-lo mas as circunstâncias puseram-me nessa situação. E correu tudo bem.

 

E aos 87 anos, o que quer fazer ainda?

Muita coisa. Eu deixei de fazer clinica em Março do ano passado. Achei que devia deixar os doentes antes que elas me deixassem a mim. Sai pelo meu pé do consultório. Deixei as minhas pacientes com a Dra. Alda, que é uma colega que trabalha comigo há muito tempo e que é competente e honesta, que eram as condições para ocuparem a minha cadeira. Agora quero conviver e até já montei o esquema perfeitamente, há dois dias em todas as semanas em que recebo as minhas colegas e amigas, são chamados “Os almoços do matriarcado”, somos só mulheres. E algumas amigas são até amigas da minha irmã porque nós tivemos a sorte do meu pai, a partir de uma certa altura em que estávamos todas na faculdade, alugar um andar para que os irmãos ficassem juntos. Ficamos com uma república, digamos assim, gerida por mim e pela minha irmã seguinte. Recebíamos muitos colegas dos meus irmãos lá em casa e por isso, ficamos também amigos. Eu fiquei com esse andar que o meu pais alugou na altura, e ele é meu. Só de lá saí no ano 2000 porque achei que devia mudar para um sítio mais cómodo para poder gozar o tempo que me resta. E é isso, o que quero da minha vida, nesta fase, é conviver.

 

Entrevista: Joana Torres | Fotos: Nélida Cardoso

2 Responses

  1. Que bem faz este seu testemunho! Transporta-me para histórias “de valor” e ainda “agradavelmente inesperadas” passadas no meu querido Norte de Portugal e das quais a Senhora sem duvida faz parte..

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